28 Outubro, 2018

La Linda e los niños de Llullaillaco

Salta, Argentina

By In América, Argentina

Cerrei os olhos e pedi alguma paciência ao Viajante Ilustrador, afinal queria despedir-me cerimoniosamente do ar frio e glaciar de Usuhaia, tal a gratidão de naquela promessa de fim de mundo ter iniciado a maior viagem de todas, aquela que crescia em mim, em nós.

“Se ali o meu coração cresceu e a minha alma estalou de regozijo, até Salta “La Linda” a minha mente pipocou, tamanha a curiosidade de conhecer o rosto e os talentos do nosso Mini-Viajante.”

Aproveitando esta energia fecunda, mal chegamos à charmosa cidade colonial de Salta, conhecida pelo lendário Tren a las Nubes (Comboio das Nuvens), atualmente desativado, logo nos dirigimos até à movimentada Plaza 9 de Julio, no coração do centro histórico. Ali é possível apreciar ora a belíssima Catedral Basílica de Salta, construída em 1855, ora três museus que ajudam qualquer viajante a entender melhor a história da região: Arte Contemporânea, Histórico del Norte (Cabildo) e Arqueologia de Alta Montanha. Nas ruas ao redor da praça, também é interessante visitar o Mercado de San Miguel; a Basílica e Convento de San Francisco; o Convento de San Bernardo, assim como uma visita de teleférico (desde o Parque de San Martín) ou a pé (pelos mais de mil degraus que começam no Monumento ao General Martin Miguel de Güemes, o herói da independência) até ao Cerro San Bernardo.

 

Contudo, e de todos estes locais, mentiria se dissesse que não houve um que me marcou inequivocamente. Em verdade, foi absolutamente único visitar o Museu de Arqueologia de Alta Montanha, ou não nos oferecesse uma das manifestações mais impressionantes e menos conhecidas de todo o Império Inca: os santuários de alta montanha.

“Naquela época, os picos da Cordilheira dos Andes eram centros de peregrinação e cenários de rituais e, hoje, Salta guarda um achado arqueológico único, não havendo outro similar em qualquer outra parte do Planeta”.

No final da década de 90, no topo do Cerro Llullaillaco com 6 739 metros – um vulcão perto da fronteira com o Chile – foram descobertas três crianças incas em perfeito estado de conservação, enterradas a um metro e meio de profundidade, debaixo de gelo e pedras. Os “Niños de Llullaillaco” estão entre as múmias mais bem conservadas do mundo, mantendo intactos as suas roupas, os seus cabelos, pele, sangue e órgãos internos. Eles congelaram até à morte enquanto dormiam, e 500 anos depois, ainda parecem crianças dormindo, e não múmias.

A mais velha, conhecida como “Donzela”, terá perecido quando tinha cerca de 15 anos; o mais novo, o “Menino”, tinha apenas seis; e a “A Menina do Raio”, finda aos sete, apresenta queimaduras no rosto e vestes por causa de uma descarga elétrica que a atingiu quando o seu corpo ainda estava na montanha. O frio extremo e a baixa pressão explicam o grau de conservação dos corpos, sendo que com eles, estavam cerca de 160 objetos utilizados pelos povos da época. Para garantir a preservação, elas são submetidas no museu que as alberga a condições semelhantes às que enfrentavam no alto da montanha, sendo que somente uma criança por vez fica em exibição ao público.

As crianças foram sacrificadas como parte de um ritual religioso, conhecido como capacocha. Escolhidas a dedo pela sua descendência, beleza e robustez física entre todas aquelas que viajavam das mais diversas partes do Império até Cuzco, as eleitas eram depois levadas até ao cume do Llullaillaco, onde bebiam chicha, uma bebida alcoólica feita de milho. Uma vez adormecidas eram colocadas em nichos subterrâneos, onde congelavam até a morte. De acordo com as crenças incas, as crianças não morriam, mas reuniam-se com os antepassados para observar os povos desde o alto. As vidas entregues seriam retribuídas com saúde e prosperidade e um estreitamento de laços entre o centro do estado e as aldeias mais distantes, entre os homens e os deuses.

Atentar aquelas crianças intactas, 500 anos depois das suas mortes, causa-nos uma sensação de arrepio, quase nos forçando a escalpelizar por completo o nosso conhecimento e entendimento (inevitavelmente frugal, até então) da palavra ancestralidade.

 

 

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