3 Julho, 2016

Tragar a vida, como quem degusta um puro

Ilha de Ometepe, Nicarágua

By In América, Nicarágua

   Desde catraia que ocupo a minha mente a imaginar grandes epopeias. Nesse tempo, acabava por ser repreendida, pois os meus pais não gostavam lá muito desta minha mania, e defendiam que um dia ainda haveria de arranjar um problema (dos sérios) por pensar de mais… Restava-me suspirar e fazer de conta que dali em diante começaria a pensar menos.

“Afinal, o que seria da vida sem um toque da magia que derruba o impossível?”

Talvez por este motivo me seja tão difícil pensar no meio do ruído e da confusão dos outros, ou não fosse a minha cabeça barulhenta e o meu coração suficientemente desassossegado.

Foi com esta minha “má” mania que cheguei à pequena aldeia de San Jorge, local de onde partem os barcos para a Ilha de Ometepe. Ali, imaginei a história de uma mulher que atormentada por um feitiço, se transformou numa ilha de pedra, protegida por dois gigantes de fogo. Sim, poderia ser o princípio de uma fantástica história… Mas voltando à realidade, quais os factos desta ilha? Nascida da união por um istmo de terra de dois vulcões – Concepción e Maderas – que emergiram das águas na sequência de sucessivas erupções, a última das quais em 1957, a Ilha de Ometepe é um paraíso ecológico.

“Para isso, conta com o lago Nicarágua que ocupa uma larga extensão do sudoeste do país e é apenas o maior de toda a América Central, apresentando uma “humilde” área de 8 624 quilómetros quadrados…”

Entre fotos e blocos de notas, a modos de distrair o tempo, o viajante ilustrador metia conversa com um ocioso motociclista de estilo de vida incerta que lhe dizia que aquele lago era grande como o mar. Realmente, quando entrei no velho barco de madeira senti-me uma autêntica descobridora dos tempos modernos.

Vencendo as ondas encrespadas e os ventos manhosos, a verdade é que lá atracámos sãos e salvos! E se da tormenta restava memória, uma sensação de paz e tranquilidade nos acolheu naquelas terras vulcânicas. Se pintora fosse (bem que o tentei, mas falhei redondamente), faria uma bela tela composta por pequenas praias de areia escura, uma dúzia de aldeias em volta daqueles dois cones de lava e alguns homens e mulheres a trotear a cavalo.

“Aquela tela passou naquele preciso instante a ser a nossa realidade”

Ali pudemos desfrutar de encantadoras imagens, de revigorantes passeios pela floresta e de preguiçosas sestas, interrompidas pela curiosidade da pequena Carmen e pelo atrevimento do seu Manchita!

Já há algum tempo que o viajante ilustrador tinha um projeto em mente, descobrir os “puros nicas”, os charutos nicaraguenses. Preso a este desejo, antes do início de cada alvorada, o viajante ilustrador punha-se a caminho da finca. Ao longo daquele caminho, tinha a companhia de bandos de macacos que ecoavam pela selva longos concertos de uivos guturais.

Era recebido com uma caneca de café e um largo sorriso de Manuel Salvador Flores, o proprietário. Um homem de 58 anos, dono de uma serenidade invejável, que falava com paixão da sua esposa e dos seus cinco filhos! Trabalhador e visionário, começou desde tenra idade a dedicar-se ao cultivo de plátano. Hoje dedica-se apenas aquilo que o entusiasma: ao tabaco e ao café.

Se o seu café é de elevada qualidade, conta que o seu tabaco é simplesmente distinto. Ou não oferecesse o solo vulcânico de Ometepe uma riqueza diferenciadora em minerais, dando ao tabaco um sabor único, terroso e adocicado. Manuel partilhou connosco todo o processo de produção, desde a sementeira até à colheita e ao escoamento do produto. Falou de forma vaidosa de como o seu tabaco era vendido para uma das maiores e mais conceituadas fábricas, a Tabacos del Oriente, propriedade de Nestor Plasencia.

Gostava de observar Manuel a enrolar de forma artesanal os charutos, num exercício de paciência e engenho, no qual contemplava o toque de cada folha, o aroma de cada elemento, o som do corte da “cabeça”, a degustação e a beleza daquele momento de prazer e de convívio.

“Naquele instante dava por mim a pensar: com ou sem charuto, quantas vezes nos deixamos envolver desta maneira pelos momentos, pelas pessoas, pela vida?”

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