30 Abril, 2016

Pirilampos à prova de bala

El Salvador

By In América, El Salvador

Rafael Rivas sabe do que fala! De cabeça cheia e de coração apertado, este homem conheceu os dois lados de uma guerra civil entre o governo salvadorenho e grupos paramilitares.

“Uma chacina que durou 12 anos e da qual resultaram (oficialmente…) 75 mil mortos.”

Esta violência crescente atingiu o seu ápice com o assassinato do arcebispo Óscar Romero, na tarde de 24 de março de 1980, enquanto celebrava uma eucaristia. Nos altares, Romero defendia o diálogo de paz e denunciava a injustiça social, os altos níveis de pobreza e os crimes políticos. Nisto relembro o filme Salvador de Oliver Stone, no qual o realizador se revela um claro simpatizante com a causa da esquerda revolucionária camponesa, fazendo uma dura crítica ao governo dos EUA, aos militares de direita e aos seus esquadrões da morte.

 

Se Rivas entrou neste conflito pelo exército salvadorenho, rapidamente decidiu guerrear por convicção, ou não estivesse farto da repressão, das desigualdades e dos massacres diários.

Como ele próprio conta, naquela época os jovens tinham apenas quatro opções, aliás três, se desconsiderarmos a possibilidade de serem mortos:

“aceitar alistar-se no exército salvadorenho, fugir do país ou ir para as montanhas e juntar-se à guerrilha.”

Bastante emocionado, Rivas conduziu-nos até à aldeia de El Mozote, em Morazán, e falou-nos do massacre que aqui começou na manhã de 11 de dezembro de 1981 e durou até à tarde de 13, pelo Batalhão de Reação Imediata Atlacatl. Todos os homens, as mulheres e as crianças foram aniquilados. Desta carnificina, apenas Rufina Amaya escapou porque, na confusão da matança, conseguiu esconder-se atrás de uns arbustos e aí ficou quieta e calada até os soldados se retirarem. “Deus salvou-me porque precisava de alguém para contar a história ao mundo”, escreve-o no seu livro Luciérnagas en El Mozote (tradução livre, Pirilampos em El Mozote). Logo depois do massacre, jornalistas americanos desceram ao terreno e um mês depois recolheram o testemunho de Rufina. Os governos salvadorenho e norte-americano começaram por negar os factos, alegando que tinha sido efetuada uma operação na região e apenas algumas dezenas de guerrilheiros tinham sido mortos. Mas Rufina persistiu e nunca se calou!

Este negro episódio da história salvadorenha não retirou qualquer esperança a este guerrilheiro nascido em Perquín, pelo contrário, fez-lhe brotar da alma uma coragem acrescida. Decidido a lutar nesta terra de insurgentes, este agora guia da Ruta de la Paz, relembrou onde tantas vezes foi buscar ânimo e determinação para as vitórias, à Radio Venceremos. Confessa ainda hoje ouvir as cassetes desta emissora clandestina, com vozes de amigos e amigas que há muito partiram, mas que encorajavam como ninguém a luta da extinta guerrilha esquerdista da FMLN. A emissão sempre começava por: “Radio Venceremos, a transmitir o seu sinal de liberdade desde Morazán, pela conquista da democracia e da paz para El Salvador. Radio Venceremos, a voz operária, camponesa e guerrilheira…”

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