17 Março, 2019

5 séculos de peregrinação: Romeiros | Ilha de São Miguel

By In Açores, São Miguel

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5 séculos de peregrinação (na ilha de São Miguel): Romeiros

Com fundação enraizada na religião, na insularidade e no “castigo” da natureza, os antigos ditos populares associam a origem do movimento de romeiros ao terramoto que devastou a Vila Franca do Campo (na época, a primeira “capital” da ilha), em 22 de outubro de 1522, sendo esta ainda hoje a maior catástrofe natural açoriana (vitimou milhares de pessoas) e a segunda mais grave da história nacional.

Durante a época Quaresmal e até à Quinta-Feira Santa, dia após dia, os homens partem em ranchos organizados em função de cada igreja local, realizando uma piedosa prática em redor da ilha de São Miguel. Com o mar sempre à esquerda, enfrentando a obediência, o cansaço, o sol, a chuva e o vento, durante uma semana dedicam-se em exclusivo à oração, suplicando ou agradecendo, percorrendo os Templos onde haja veneração da Imagem da Virgem (templos marianos). A sua caminha inicia-se antes do alvorecer, e a pernoita tem lugar logo a seguir ao pôr-do-sol.

A sua organização é complexa e estruturada.

Cada Rancho de Romeiros terá: Mestre e Contramestre (nomeados pelo pároco da localidade), Procurador de Almas, Lembrador de Almas, dois Guias e dois ou mais Ajudantes.

O Movimento de Romeiros de São Miguel define-o da seguinte forma:

O Mestre é a primeira de todas as figuras do Rancho, é ele quem preside ao auto processional, ele quem dirige as orações, ele quem oferece, quem suplica a Deus e à Virgem as inúmeras preces de que vem incumbido. Ao Mestre deve-se obediência, todas lhe beijam a mão, de manhã e à noite, é ele quem dá o sinal de descanso e a ordem para de novo se começarem as preces. O seu lugar é no fim do Rancho, a meio das alas que os Romeiros formam pela estrada fora. É o primeiro que ajoelha, é o último que à noite se recolhe a descansar, é o primeiro que na madrugada seguinte se apresenta para a nova caminhada. É quem pede ao anoitecer, na freguesia ou Vila onde chega, pousada para os Romeiros, é o que agradece os favores recebidos, é o responsável por qualquer anormalidade que se dê entre os Romeiros, e, por ser o primeiro entre todos, é o ultimo a receber favores, é o ultimo em regalias.

Com lugar a meio do Rancho, segue o Procurador das Almas, responsável estrada fora por dirigir as preces e pedir a sua aplicação, bem como por receber, durante o trajecto, os pedidos de diferentes pessoas, para orações aplicadas a intenções diversíssimas; daqui lhe vem o nome de Procurador, e das Almas lhe chamam porque de nome próprio, de quando em quando, manda por elas rezar rodo o Rancho:

– Pelas Almas do Purgatório, Padre Nosso, Avé Maria e todo o crente que pede ao Procurador alguma oração, fica por esse obrigado a rezar tantas dessas orações, quantos os Romeiros que vão no Rancho, que cada um deles reza a oração pedida.

– Quem é o Procurador? Perguntam essas criaturas, cheias de fé, dos lugares por onde vai passando a Romaria. E um qualquer do Rancho o aponta; em geral é um velho já corcovado ao peso dos anos. E elas vão então segredar-lhe, pedindo uma oração pela alma do ente querido, ou pela boa nova de um despacho que espera.

– E quantos sois? Perguntam então já de modo que todos ouçam. Deus Vos guie na Vossa Romaria.

O Lembrador das Almas é quem, durante a caminhada, tem a seu cargo anunciar e pedir Orações especiais.

O Guia é quem vai à frente de toda a Romaria, porque e o prático dos caminhos, das veredas, das ribanceiras por onde todo o Rancho tem de passar, para ir pelos mais curtos atalhos até todas as Ermidas e Igrejas espalhadas por toda esta Ilha de São Miguel, onde haja uma invocação à Virgem Maria. É um velho, em geral batido em longos anos naquela caminhada.

O traje é igual para todos, sendo contituído apenas num lenço de cor atado à cabeça, chaile e sovadeira às costas (presa por uns cordéis aos ombros), e ainda um cajado numa mão, e um Rosário na outra.

A comida, que pouco mais varia do que pão e queijo, é guardada na sovadeira e dá até meia jornada. Ao encontrarem as famílias ao encontro e lhes reformam a comida para o resto da viagem.”

É importante ter em atenção redobrada na condução, especialmente de madrugada  e ao anoitecer, uma vez que os ranchos de romeiros muitas vezes andam nas estradas.

Na atualidade, as mulheres já começam a organizar as suas primeiras romarias, e o movimento também se realiza em outras ilhas do arquipélago, como a ilha Terceira ou Graciosa, embora com muito menor expressão.

Em 2022, as romarias completam 500 anos de existência, pelo que se iniciou um processo de candidatura a Património Imaterial da UNESCO.

 

Dados essenciais (2019):

Movimento: romaria, peregrinação:

Tipo: religioso (católico)

Propósito: Penitência, agradecimento de graças e suplicar a paz e benção de Deus para a humanidade, para a Igreja e para as famílias

Envolvidos: 2000+ homens, em 54 ranchos

Distância percorrida: 250+ quilómetros em 8 dias (30/40km/dia)

Regulamento do Movimento do Romeiro de São Miguel

 

O seguinte projeto fotográfico dos Romeiros de Santa Cruz da Lagoa, na ilha de São Miguel, realizado pelo Viajante Ilustrador em 2015, partiu de um desafio lançado pelo próprio de retratar com consistência e elevada dignidade esta tradição micaelense, profundamente enraizada, que enaltece o culto, a  capacidade de sacrifício físico, a libertação material e a generosidade do povo açoriano.

 

 

 

 

 

 

5 centuries of pilgrimage (in São Miguel island): Romeiros

Deeply rooted in religion, insularity and in the nature’s “punishment”, the ancestors associate the origin of this pilgrims movement to the earthquake that devastated Vila Franca do Campo (in that time, the first “capital” of the island), in October 22nd, 1522, which is, until today, the largest Azorean natural catastrophe (responsible for the death of housands of people) and the second most serious of national history.

During the Lenten season and until the Holy Thursday, day after day men depart from their homes organized on ranches, accordingly to each local church, in a pious practice around the island of São Miguel. With the sea always on their left side, facing obedience, fatigue, sun, rain and wind, for a week they dedicate themselves exclusively to pray, begging or giving thanks, moving from temple to temple, where there Image of Virgin is venerated. Their walk starts before sunrise, and it must end right after the sunset.

Their organization is complex and structured.

Each ranch will have: A Master and Countermaster (designated by the local priest), Procurator of Souls, Reminder of Souls, two Guides and two or more Assistants.

The Movement of Romeiros de São Miguel defines it as follows (free translation):

“The Master is the first of all the figures of the ranch, the one who presides over the processional moment, who directs the prayers, who offers, and who pleads to God and to the Virgin the innumerable prayers that are entrusted. To him everyone owes obedience, kissing his hand in the morning and in the evening. He is the one who signals to rest and orders to again reiniciate the prayers. His place is at the end of the Ranch, in the middle of the sides that the Romeiros form accross the paths. He is the first to kneel, the last to retire to rest at night, and the first to appear at the next dawn for the following walk. To Romeiros, he is the one who thanks the favors received, he is responsible for any abnormality that occurs among the Romeiros, and, being the first among all, is the last to receive favors.

In the middle of the ranch follows the Procurator of Souls, responsible for directing the prayers on the road and asking them to be applied, and also who receives during the journey the requests of different people for prayers applied to varying intentions; hence the name of Procurator, and of the Souls they call him because from time to time he orders them to pray the ranch from his own name.

The Reminder of Souls is whom, during the walk, is responsible for anouncing and asking for special prayings.

The Guide is the one that goes ahead of the whole Pilgrimage. He’s an old man, usually beaten for years on that walk.

No one uses distinguishing marks. Some use a colored scarf tied to his head, but all use a shawl and a wraped package on the back (bound by a cordon through their shoulders). In one hand they hold a rosary, and in the other, a crafted wooden handle.

The food, which varies little more than bread and cheese, is taken by the Romeiros in their package, and lasts half journey, moment when the families go to meet them and restore their food slupplies for the remaining days. “

It is crucial to understand that the ranches of Romeiros walk in the regional roads, so everyone must have extra attention when driving, specially in dawn and dusk.

Women recently have started to organize their first romarias, and this movement is also spreading to another islands of the archipelago, such as Terceira or Graciosa, although with much less expression.

In 2022, romarias complete 500 years of existence, so a candidature for UNESCO immaterial patrimony is being prepared.

Essential data (2019):

Movement: pilgrimage

Type: religious (catholic)

Purpose: Penitence, thanks giving and begging for peace and blessing of all Humanity, for Church and families

Envolved: 2000+ men, organizes in 54 ranches

Lenght: 250+ kilometers in 8 days (30-40km/day)

 

The photographic project presented reflects the path of the Romeiros of Santa Cruz da Lagoa, in São Miguel island, in 2015, and started from a challenge launched by the Viajante Ilustrador to portray this rooted tradition of São Miguel islanders with consistency and high dignity, praising the cult, the capacity for physical sacrifice, the material liberation and the generosity of the Azorean people.

rean people.

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