(Sobre)viver através da arte e religião | Mostar e Blagaj, Bósnia e Herzegovina

By In Bósnia e Herzgovina

Ao afastar-nos da parte antiga da cidade, voltamos a cruzar-nos com os evidentes resquícios da guerra, em que vários edifícios permanecem abandonados, sendo que a maior concentração de arte de rua em Mostar pode ser encontrada dentro e ao redor da torre de nove andares de um antigo banco (apelidada de Sniper Tower), perto de Spanski Trg, usada como posição de atiradores furtivos durante a guerra. Hoje, partes do prédio em ruínas e arredores são usadas como telas por artistas de rua. À semelhança de um número crescente de cidades ou vilas, Mostar tem o seu próprio festival de arte urbana. O evento acontece desde 2012 e tem como missão trazer talentos à cidade do pós-guerra, redefinir o espaço público e criar redes de contatos com artistas das mais diversas partes do mundo. Mas se ao longo de uma vida nos acostumamos à inevitabilidade de sarar feridas, todos, de alguma forma, tentamos escapar aos golpes fortuitos que não assumem a forma de escoriação, quebra ou amputação. Nesta cidade (e país), a seu jeito e tempo, os edifícios são facilmente reconstruídos, ainda que haja uma outra parte que tende, sofregamente, a calar-se.

Admirar estas corajosas manifestações de arte é presenciar e valorizar um processo de cura, em que o simbolismo, as metáforas e a criatividade facilitam a árdua reorganização interna e a expressão emocional, potenciando o perdão, o autoconhecimento e a liberdade merecidos, ou como diria tão acertadamente Bertold Brecht: “Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver”.

  

Leves e animados, seguimos para Blagaj, onde nos apaixonamos por Tekke ou Tekija, um mosteiro dervixe que fica empoleirado no sopé de um penhasco com cerca de 200 metros de altura, sendo que no seu topo encontram-se os restos da cidade-forte de Stjepan Vukcic-Kosaca, que data da Idade Média.

É um dos locais mais sagrados e antigos da Bósnia e Herzegovina. O mosteiro islâmico recebe a corrente sufista, e nesta, obriga-se que os seus praticantes sigam uma vida de pobreza e austeridade, sendo, contudo, sobejamente conhecida pelas suas danças rodopiantes, quase hipnóticas. Edificado às margens do rio Buna, as primeiras referências deste mosteiro, segundo a UNESCO, datam de 1447, não sendo conhecida a sua traça original, uma vez que, por diversas vezes, já foi destruído, reconstruído ou reparado, sobretudo por danos causados por fenómenos naturais (cheias ou derrocadas) resultantes da sua localização. O objetivo principal da estrutura era servir como um local de louvor dos dervixes (Kadiri, Rufai, Khalwati e Nakhshibendi), enquanto a Musafirhane (casa de hóspedes) tinha um propósito profano. Ao lado do Tekke existe o Turbeh, um mausoléu com relíquias de Sari Saltuk e Acik Pasha, ambos missionários islâmicos de origem turcomana que viveram e praticaram o sufismo em meados do século XIII. Existem muitas lendas sobre Sari Saltuk, das quais uma é que em um de seus muitos testamentos ele ordenou que oito caixões fossem feitos após sua morte e enviados a oito países, mas apenas um deles conteria seu corpo, para que os peregrinos tivessem de viajar e procurar o seu verdadeiro túmulo e ao mesmo tempo espalhar o Islão. Hoje, o Tekke é ocupado pelos dervixes da ordem Nakhshibendi.

Descentramo-nos do caos moderno para, em comunhão com a natureza, apreciar aquela construção situada na nascente do rio Buna, um afluente do rio Neretva que atravessa Mostar, e brota de dentro de uma montanha de pedra. No interior do mosteiro e descalços, admiramos a sua arquitetura otomana tradicional, abeirando-nos das varandas para apreciar o pátio e o rio, embora uma das melhores vistas é conseguida através de um curto trilho que passa por detrás dos restaurantes que, quando alcançada, nos faz perder noção do tempo, tal a simplicidade do mosteiro a refletir numa água ora azul turquesa ora esmeralda, e cravado numa montanha de pedra.

Sentados os três numa rocha no fim desse trilho revisitei alguns versos de “Encontro de almas” de Rumi, um célebre poeta e místico sufi:

“Vem.
Conversemos através da alma.

Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos. (…)

Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo, como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.

Já que todos somos um, falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: “toca”, se todas as mãos são uma?

Vem, conversemos assim.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.

Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.

Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.”

 

 

 

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