14 Maio, 2020

Prazeres mediterrâneos | Ilha de Hvar, Croácia

By In Croácia

Apesar de embrenhados no colo da Mãe Natureza, decidimos explorar um pouco da dinâmica da cidade portuária de Hvar. Com o X às costas, demos um longo passeio desapressado a pé, que começou pela praça principal, conhecida por Praça de Santo Estevão, com as suas muralhas do século XIII, e com a Catedral que deve o nome ao mesmo beatificado, passando pela Igreja de São Marcos, pela imponente fortaleza de Španjola, pelo Mosteiro Franciscano – que desfruta da vizinha praia Lučica e assim se alonga desde o mar até à catedral homónima -, e finalmente pelo Convento Beneditino.

 

Neste dia quente de final de verão desfrutamos de um dos pratos típicos croatas (robalo grelhado, acompanhado com pesto, favas e queijo feta), para depois darmos uma última volta pela Riva. Antes de deixarmos a cidade passamos pelo mercado, aproveitando para comprar ainda alguns produtos locais frescos para o nosso jantar no glamping. Se sempre apreciamos passar tempo nestes espaços de venda e estórias, com o X tudo assume uma originalidade especial. Privar com uma criança faz-nos repensar na forma como olhamos para os produtos ou até os tocamos, já que, no meu caso, não os consigo cheirar, visto ter sido poupada aos prazeres e desprazeres deste sentido. Interessante, como estas “niscas” de gente recuperam a intenção poética das rotinas da vida… Ao que recordo o poema “Num Bairro Moderno” de Cesário Verde, autor que estudara nos meus tempos de liceu:

Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(…)
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

Mas nem só de poesia se faz a vida, ao que além de legumes e frutas, acabamos por ali comprar um azeite artesanal absolutamente divinal. Em verdade, temos por hábito comer de manhã fruta, café e pão com queijo fresco, regado com azeite e salpicado com algumas aromáticas. Tenho um imenso prazer nesse momento matinal. Quem me conhece sabe como gosto desta primeira refeição do dia, brincando, por vezes, com a ideia de que a ser para morrer, que seja depois do meu demorado pequeno almoço. Olhar para aquela grotesca garrafa reaproveitada que nela continha tamanho precioso ouro líquido, fez-me pensar em como a grandiosidade está muito além do que superficialmente vemos. Na mitologia dizia-se que a oliveira era uma criação da deusa Atena, sendo símbolo de vitória, de paz e purificação. De facto, nos Jogos Olímpicos, o vencedor era agraciado com uma coroa de louros com folhas de oliveira, prevenindo ainda Virgílio na sua obra Eneia que “com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente”. Mas não só os gregos a apreciavam, também os povos islâmico, judeu e cristão tomam a oliveira por uma árvore sagrada, símbolo da presença de Deus entre os vulgos mortais. Disto, gosto de pensar que se todos os amanheceres trazem novos desafios, então que possa para eles partir forte, determinada, expurgada e bafejada pela proteção divina.

Felizes, embora um pouco cansados e encalorados, regressámos ao carro. O mar chama por nós, dizia, divertido, o Viajante Ilustrador.

E a verdade é que chamou, a poucos quilómetros de Hvar, na praia Dubovica.

E nada mais importou.

 

 

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