19 Janeiro, 2020

de·sa·ce·le·rar | Croácia, Rovinj

By In Croácia

“Nós não temos medo que o mar nos alague ou de que a terra nos falte: temos sempre presente, como salutar advertência, a sensação de que o Mundo é curto, e o tempo mais curto ainda».

Vitorino Nemésio, Corsário das Ilhas

 

Na nossa linha de vida existem momentos em que urge desacelerar. Tal sentir, porém, não resfria de todo o desejo de partir, apenas abranda os nossos passos e o ritmo de viagem. Em verdade, são tempos indispensáveis à construção da nossa própria identidade enquanto homens e mulheres viajantes, permitindo-nos aquando da demanda ou da visita de novos destinos, encará-los com uma maturidade e gratidão crescentes.

O Viajante X nasceu nos Açores, um lugar de pouca terra e muito mar, li em tempos. Uma ideia tão bela, como fatídica principalmente, quando recordamos as palavras do escritor micaelense Daniel de Sá no seu Livro Ilha Grande Fechada, “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”. E se o X é ainda demasiado pequenino para entender inquietas reflexões, a verdade é que a vontade de sair da ilha parece já lhe ser estranhamente necessária e feliz. Um dia, falarei com ele sobre isto. Um dia, quando ele chegar a casa – seja qual for a sua ilha – perceberá as boas, mas falsas saudades do mundo.

Respeitando as raízes do X, assim como o rácio de terra e mar a que está acostumado, desejou este trio de viajantes fazer uma roadtrip pelos Balcãs, começando a leste da Europa, por um pedaço de paraíso banhado pelo Mar Adriático, a bela Croácia. Coriscos ilhéus estes, que mal saem da ilha para começar uma longa viagem, logo escolhem para primeiro país do seu circuito, um que só tem mais de mil ilhas!

“Depois de 3500 quilómetros de avião e outros 250 de carro desde Zagreb, chegamos à nossa primeira estadia: Rovinj!”

Uma cidade situada na Istria (norte do Adriático), com uma história intimamente ligada à milenar República de Veneza, e que até 1763 era uma ilha, passando a integrar o território continental por mão humana…

A nossa casa, naqueles dias, ficava a dois passos da zona do mercado, que exibia vaidosamente produtos locais. Estes decoravam maravilhosamente as bancadas, desde as frutas da época, em especial os doces e polposos figos, ao azeite, além das saborosas trufas e massas… Aquela tela simples, mas imensamente viva era desde logo um convite aos sentidos de qualquer transeunte. Não bastasse ter o mar como espelho, Rovijn ainda se assemelha a um pequeno labirinto de becos e ruelas medievais, que conferem um certo mistério e até periclito, tão próprios e característicos dos lugares românticos. Naqueles dias, abolimos as rotinas, e também o X, se habituou facilmente (talvez em demasia) à sua ausência!

Nas caminhadas dedicamos algum tempo a explorar pontos de interesse como o Porto de Rovinj, ou a Igreja de Santa Eufémia, sendo que a maior parte do tempo foi desfrutada entre revigorantes mergulhos e preguiçosos banhos de sol no Monte Beach, assim como arrebatadores finais de dia no Mediterraneo Bar Rovinj.  Procuramos comidas de conforto, pecaminosas até, sempre de decisão difícil, na maioria das vezes, entre uma pasta ou uma pizza, tal a forte influência italiana daquele local. Tivemos a sorte de descobrir sítios ótimos, como a Bookeria Rovinj, preferido do X, ou não passasse maior parte do tempo entre colos das bonitas e simpáticas empregadas croatas, e a Pizzeria Da Sergio, um sitio simples, mas com uma pizza ótima que pedimos sempre para levar connosco, juntamente com umas cervejas, tal a vontade de jantar em alguma “varanda” para o azul do oceano.

Por meio de uma condução desacelerada o Viajante X mergulhou pela primeira vez no Adriático, e como bom filho do mar que é deu-se por … feliz!

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