2 Agosto, 2019

O primeiro dia de viagem do Viajante X

Bruxelas, Bélgica

By In Bélgica

Mais do que termos escolhido visitar Bruxelas, em verdade, foi esta cidade que nos escolheu, fruto de um feliz acontecimento: a exibição da exposição fotográfica “Na sombra do teto do mundo” do Viajante Ilustrador, a convite da International Campaign for Tibet. E se, de algum modo, este destino estava longe de se tornar marcante, hoje ocupa um lugar muito especial na nossa memória, ou não tivesse sido a primeira viagem do nosso pequeno Viajante X, logo aos três meses.

Apesar de ser novembro e da estação outonal, o sol foi generoso connosco, tendo-nos acompanhado praticamente sempre nestes dias. De traço bonito e elegante, Bruxelas é uma cidade madura, mas que encerra uma certa rebeldia na sua expressão urbana e cultural. Se nela podemos desfrutar de datados monumentos, imbuídos de uma tradição clássica e austera até, esta visão é completamente desconstruída quando numa fortuita caminhada te encontras com pequenas estátuas atrevidas e um tanto ou quanto extravagantes, ou simplesmente aprecias a sua fluência de gente sentado numa esplanada, em que os pitéus locais se contam pela difícil escolha de uma cerveja (tal a variedade!), uma dose de mexilhões acompanhada por umas simples mas saborosas moules frites (batatas fritas), ou para os mais glutões, os seus waffles (gaufres, em francês) ou pelos seus pecaminosos chocolates belgas.

 

O centro urbano de Bruxelas é indissociável da singular Grand Place que, em 1998, foi galardoada com a distinção de património mundial da UNESCO. Esta praça, originalmente usada no século XI para os mercados ao ar livre, está agora rodeada por um maravilhoso perfume a chocolate, em resultado do comércio existente, e pela arquitetura barroca flamenga ornamentada, datada dos séculos XV a XVII, como é exemplo a Casa do Rei, situada no lado contrário à Câmara Municipal. Esta obra-prima de arquitetura neogótica acolhe o museu da cidade, que percorre a história de Bruxelas desde a Idade Média até à atualidade.

À volta deste centro, encontra-se um dos símbolos mais emblemáticos e estimados de Bruxelas: o Manneken Pis. Criada em 1388, mais não é do que a estátua de um menino, com pouco mais de meio metro, a urinar. No mínimo, peculiar… Contudo, e devido à importância da estátua, muitas foram as ocasiões em esta acabou por ser rapinada. E tal foi a consternação dos habitantes de Bruxelas que, em 1619, foi colocada uma réplica que se mantém até hoje. Com o passar dos anos, diferentes versões de lendas se contaram acerca do Manneken Pis: desde que o menino da estátua teria apagado dessa forma inusitada uma chama acesa, salvando assim a cidade de um incêndio; a que o bispo de Arras, terá intercedido em nome de um latifundiário rico que estava desesperado para ter um filho, mas quando este finalmente nasceu, de imediato urinou na barba do bispo; até a um nobre moço que saiu de uma procissão para urinar na parede da casa de uma bruxa que, como maldição, o transformou em estátua… Enfim, como li algures, independentemente da eventual verdade destas lendas, esta fonte está para Bruxelas, como a fonte de Trevi está para Roma. Além do Manneken Pis, há ainda a Jeanneke Pis (a versão feminina) e o Het Zinneke (a versão canina). Mas não bastasse a sua conduta inusitada, Manneken Pis cria igualmente tendências, ou não tivesse, em 1968, um governador apresentado a primeira peça de roupa para este rapaz. O início de várias centenas de trajes que os presidentes de governo foram presenteando ao visitar Bruxelas, podendo o largo guarda-roupa deste pequeno herói – com alguns modelos bastante particulares – ser apreciado no Musée de la Ville.

E porque agora a velocidade dos nossos passos é menor, e confiando que o Viajante X ficaria mais inspirado pela profunda cultura europeia aqui existente do que por tanta estátua, passeamos ainda pelas Galeries St. Hubert, as primeiras da Europa e inauguradas por Leopoldo I, em 1847; pela La Bourse, um edifício de estilo neorrenascentista que agora abriga a bolsa de valores e exposições temporárias; e a Catedral de São Miguel e Santa Gudula, padroeiros da capital da Bélgica.

Para o primeiro dia da primeira viagem do Viajante X, tudo correu maravilhosamente bem, somente precisando de uns locais para mudar fraldas e para o alimentar, sendo o seu descanso feito abraçado ao pai. Certos de que nada mais seria igual, entre o brilho que este trio emanava, destacava-se aquele pequeno olhar curioso, quer pela temperatura e pelos cheiros, quer também pelas diferentes culturas que cruzou, gerando grande empatia por esta aldeia global a que chamamos planeta Terra.

     

 

 

 

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