13 Maio, 2019

Nepal, a vida criativa (Parte III)

By In Ásia, Nepal

Terceira parte de uma viagem documental que aborda o modo como o povo nepalês supera os efeitos dos terramotos de 25 de abril e 12 de maio de 2015, e que procurou sensibilizar a população açoriana para a prevenção em casos de fenómenos sísmicos.

Em agosto e setembro de 2015 finalmente aterramos e abraçamos o Nepal. Estivemos em locais onde o apoio internacional chegou rapidamente (centro de Kathmandu e Saankhu), mas também onde só chegou um mês depois das catástrofes (distrito de Dolakha).

Partilhamos das condições em que os nepaleses subsistem provisoriamente, distribuímos roupa e material desportivo e reunimos com a Coordenação da Assistência Humanitária da ONU no Nepal para obter mais esclarecimentos, mas sobretudo para tentar dar voz a todos aqueles que de forma criativa sobrevivem à perda.

“Com este projeto procuramos implicar o outro e recuperar a vontade de querer intervir de forma local, resgatando a esperança no poder dos pequenos atos numa mudança global.”

Ver Parte I

Ver Parte II

                                                               + info: www.carlosbrummelo.com.

A louca

Somem-se as memórias de uma manhã, de uma tarde ou de uma noite. Existe um novo tempo: antes e depois do terramoto.

Bastaram segundos, contou o líder daquela comunidade que, após uma pausa, murmurou: quando a terra tremeu a mulher enlouqueceu!

Ali estava a louca a sair detrás do muro. A mulher que além da casa parece ter perdido o nome. Dizem que ouve barulhos estranhos, escondendo-se várias vezes ao dia, tal é o medo da fúria da terra. E foge, desconfiada, dos que chegam.

Sussurro ao Krishna: que adianta fugir à morte? Ou nos encontra ou nos endoidece!

A vida criativa

Será a criatividade um dom de alguns?…

 Fruto da serendipidade (ou não), conhecer o Nepal elevou a nossa visão de criatividade e combinou-a com expressão, imaginação e invenção! Pessoas simples e autênticas mostraram-nos que, mais do que engenho, a criatividade é a capacidade humana de encontrar soluções originais aliadas à vontade de mudar o mundo.

Esta capacidade vive – de forma latente ou manifesta – em todos os otimistas, tolerantes, persistentes, compassivos, intuitivos, curiosos, resilientes e corajosos. Em todos os que, após as catástrofes, (re)inventaram prioridades, projetos e sonhos, com mais ou menos perda, com mais ou menos ajuda, com mais ou menos sucesso.

A vida criativa é uma atitude!

 

 

Náufragos em esperanças

Naquele dia o céu gritava e pranteava como se da sua mãe se tivesse perdido. Ali estávamos nós encurralados naquele choro ininterrupto.

Da janela do que restava daquela velha estrutura com motor feita de aço, borracha e vidro, admirava a força daqueles rios de lama nos quais os caminhos se tornaram.

Tal carpidura não parecia incomodar as crianças que caminhavam na rua. Felizes e descalças, arregaçavam corajosamente as calças e atravessavam velozes a estrada como quem escapa por entre trincheiras de guerra à bala da morte.

A lente dele viu-os primeiro, o meu coração logo depois. Enquanto o garoto se perdia em sonhos de homem, a mãe entretinha o bebé, transformando cada gota de chuva numa história de encantar.

 

 

Restaura.dor

Neste vale de Kathmandu, outrora um belo lago onde flutuava uma flor de lótus que emanava uma luz mágica, escuto agora um grosseiro som de desbaste. Por detrás de uma nuvem de pó, descubro homens de rebarbadora e mulheres a sacudir sagradas pedras com pincéis.

Talvez tenha sido Brahma – o criador – nascido do umbigo de Vishna que os tenha enviado!

Ali trabalhava arduamente aquela equipa de austríacos, na companhia de curiosos nativos que assistiam atentamente àquelas operações de salvamento e resgate. Não de pedras, mas de deuses vivos!

No Nepal as divindades não fazem esperar. No Nepal as divindades vão ao encontro das pessoas.

Apressa-te, o céu é ao virar da esquina!

 

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