14 Abril, 2019

Nepal, a vida criativa (Parte I)

Açores pelo Nepal | Campanha de angariação de fundos

By In Nepal

Na manhã do dia 25 de abril de 2015, acordamos com a notícia de um terramoto de 7.8. na escala de Richter em Gorkha, Nepal. A partir deste momento, não conseguimos deixar de pensar em como dali a dias teria sido a nossa prevista e tão deseja chegada a este país, exatamente no dia 12 de maio de 2015, data em que ocorreu um segundo terramoto de 7.3 na escala de Richter, em Dolakha. Aliviados por termos sido poupados, mas desassossegados com o sofrimento de tantos, fomos impelidos a tomar a urgente e necessária decisão: a de evitar ou a de abraçar este frágil destino que tinha acabado de sofrer as piores catástrofes naturais desde 1934.

Este dilema valeu não pela sua solução, mas por todo o processo de busca, em responsabilidade e em liberdade. Qual a melhor decisão a tomar? Ousamos dizer que só pode ser aquela que ultrapassa em muito a fronteira do indivíduo, é a que toca em terreno coletivo e de bem-comum. Submersos num mundo de incertezas, percebemos que a nossa melhor decisão exigia boas heurísticas, declaradas intuições e… coragem!

“De coração cheio e de mente inquieta, decidimos então conhecer este povo, que aparentemente tão distante, partilhava de fragilidades comuns!”

Desta vontade nasceu a campanha de angariação de fundos, «Açores pelo Nepal»*, com a missão de apoiar as vítimas das catástrofes e sensibilizar a população açoriana para as boas práticas em situações de fenómenos geológicos. Promoveram-se diversas atividades (desde ações ao ar livre, à mesa até à escuta de sons atlantes) com vista a apoiar a missão da Assistência Médica Internacional no Nepal, seguindo-se um trabalho fotográfico e documental naquele país.

Em agosto e setembro de 2015 abraçamos finalmente o Nepal. Estivemos em locais onde o apoio internacional chegou rapidamente (centro de Kathmandu e Saankhu), mas também onde só chegou um mês depois das catástrofes (distrito de Dolakha).

Partilhamos das condições em que os nepaleses subsistem provisoriamente, distribuímos roupa e material desportivo e reunimos com a Coordenação da Assistência Humanitária da ONU (OCHA‑UN) no Nepal para obter mais esclarecimentos, mas sobretudo para tentar dar voz a todos aqueles que de forma criativa hoje sobrevivem à perda.

Em 2016, o projeto contou com uma apresentação no TEDx em Lisboa, tendo a exposição sido apresentada no Instituto Camões (Lisboa), na Antiga Capitania do Porto de Aveiro e na Galeria Arco 8 (Ponta Delgada). O trabalho desenvolvido foi também um dos grandes impulsionadores da criação do Viajário Ilustrado.

Com este projeto e através da fotografia, falada e sentida, procuramos implicar o outro e recuperar a vontade de querer intervir de forma local, resgatando a esperança no poder dos pequenos atos numa mudança global.

Volvidos 4 anos após as catástrofes, o nosso coração continua perto do Nepal. Os apelos para a publicação dos textos e fotografias têm surgido dos mais diversos quadrantes, pelo que voltamos a abraçar esta que foi uma das nossas viagens mais memoráveis.

Namaste!

  

 

 

 

 

Olhos de Buda

Depois de algumas semanas pelo Tibete, no encalço de Gomolangma – a deusa mãe da terra – voamos de corpo emocionado e de alma pasmada para o outro do lado do teto do mundo, até ao Nepal – Sagarmatha – a deusa mãe do céu.

O ponto de encontro foi em Swayambhunat, onde trocamos por instantes de olhos com Buda. Ao longe vimos um homem a acenar, era Krishna.

Esse antigo sherpa com nome de divindade, agora guia e tradutor, percebeu desde cedo que, para além de orgulhosamente nepalês, tinha um coração grande… em especial para as mulheres!

 

 

Coração intato

Com um sorriso rasgado, a mulher que se apresentou como esposa de Chiranjibi Chaulagai acreditava que Saankhu voltaria a ser uma das aldeias mais bonitas de Newari.

Sem lar, vive agora com o marido, os filhos e o sogro em casa de um familiar. Mostra-se contudo serena e de pazes feitas com a desgraça, querendo apenas recordar a alegria e a gratidão que sentiu ao apertar os filhos, como se da morte os resgatasse.

Despediu-se. Tinha uma vizinha à sua espera, mas disse que voltaria para ver da sua casa, ao que retorquimos: qual casa, está tudo destruído.

Já apressada para chegar a tempo do seu compromisso gritou: a nossa casa é onde o nosso coração escolhe viver!

 

 

* Toda a informação sobre o projeto pode ser consultada em www.carlosbrummelo.com

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