5 Fevereiro, 2019

As fábulas (in)esperadas

Rovaniemi e Poorvo, Finlândia

By In Europa, Finlândia

De olhos postos no céu, tanto que fizemos figas para poder ver as luzes do norte, como ali, em plena serra de Ounasvaara, nos arredores de Rovaniemi, são as auroras boreais conhecidas. Na verdade, estas devem o seu nome a Galileu Galilei, que se inspirou na deusa romana do amanhecer, Aurora, e no nome grego para o vento do norte, Bóreas. Porém, naquela noite não tiveram lugar as tão desejadas “danças dos espíritos” – como outrora os povos indígenas do norte da América as imaginavam – mesmo quando quase achávamos enxergar uma claridade esverdeada ou um rubor sumido como se o sol ali estivesse a nascer, tal o desejo. É verdade que podem mudar de cor em segundos, como podem subsistir durante horas com a mesma tonalidade, sendo o verde florescente a mais comum. Em vão, ainda tentamos enganar as horas de espera (ou melhor o Viajante Ilustrador tentou…) com uma troca de impressões sobre o Arktikum, um museu e centro de ciência, e sobre o Pilke House, que se destaca pelo uso de produtos de madeira sustentáveis no seu design.

“Todavia naquela escuridão percebi que quando queremos muito que algo aconteça, as coisas tornam-se reais, e as luzes do norte brilharam intensamente, mas dentro de nós, quando congelámos o “sim” até ao fim das nossas vidas.”

No dia seguinte voaríamos até à capital, para de imediato percorrer um pouco menos de 50 quilómetros de distância para visitar um local absolutamente adorável. Remontando ao século XIV e emanando um charme absolutamente encantador, Porvoo é a segunda cidade mais antiga da Finlândia. Aqui encontra-se uma tradição bilingue em que a população fala finlandês e sueco, sendo que os nomes de cidades, de ruas e não só, surgem inclusive nas duas línguas, denominando-se Porvoo, em sueco, Borga. À beira rio, as casas de madeira são um deleite para o nosso olhar, as quais, antigamente, eram usadas como armazéns das mercadorias que chegavam dos barcos. Estas foram pintadas de vermelho no século XVIII, em homenagem à visita do rei da Suécia, Gustav III.

Também nesta cidade residiu até à sua morte o poeta Johan Ludvig Runeberg, afamado pelo modo como aludia ao patriotismo finlandês. Uma das casas onde morou em Porvoo foi transformada em museu, assim como várias outras casas históricas, como a de Holm, um comerciante poderoso da região.

A propósito de Johan Ludvig Runeberg, não deixa de ser caricato saber que os nativos, em muito se deliciam por início de fevereiro, altura do aniversário deste poeta, com uma iguaria conhecida pelo nome de torta de Runeberg, algo que para muitos deve fazer crer que afinal Runeberg trocava as letras pelos tachos, e teria sido um distinto confeiteiro. Mas como é largamente sabido, as aparências iludem, e esta mini torta com geleia de framboesa no topo representa sim o homem que trouxe a autoestima ao povo finlandês por escrever um poema que, posteriormente, levou a Finlândia à independência, e é hoje um Hino Nacional. Quanto à torta, era na verdade a mulher dele, Fredrika Runeberg – também escritora e uma pioneira em romances históricos finlandeses –, a confeiteira por detrás desta guloseima. Segundo se ouve, o casal Runeberg e os seus oito filhos viviam com os tostões contados, mas Fredrika, uma obstinada mãe de família, usava as migalhas de pão da noite anterior e transformava-os em massa, para depois os cobrir com frutas de seu jardim. Mais uma prova de que ao lado de um grande homem há sempre uma grande mulher!

Tiramos o dia para passear pelo centro histórico de Porvoo, um bairro idílico e pitoresco situado numa colina de Porvoonjoki, sendo impossível não admirar aquelas casas de madeira pintadas de várias cores, ou até mesmo não reparar no alto da colina, na Catedral, uma pequena igreja dedicada a Maria, mãe de Jesus, que mais parecia tirada de um conto de fadas.

“Como as crianças acreditam no Pai Natal, nós passamos a acreditar que havíamos encontrado a outra metade de nós. Ou, como na gíria dos poetas, a acreditar em impossíveis, de mãos dadas.”

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