12 Novembro, 2018

Qual é a sua estrada?

San Antonio de Los Cobres, Salinas Grandes e Purmamarca, Argentina

By In América, Argentina

“Qual é a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco‑íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?”

Jack Kerouac

Ainda em Salta, mas já a queimar os últimos cartuxos em terras argentinas, decidimos fazer uma mini road trip, talvez inspirados pelo facto de andarmos a reler “Pela Estrada Fora” de Kerouac. No itinerário começamos por conduzir através de uma rota paralela à famosa ferrovia Tren a las Nubes, e em que chegados à Quebrada del Toro, a densa vegetação circundante deu lugar a um cenário árido repleto de cardones, as espécies mais altas de cactos, que crescem até quase 20 metros de altura. É curioso como este percurso, quase misterioso pelo silêncio de gente, nos convida a apreciar pequenas aldeias na montanha, onde igrejas alvas da época colonial acolhem modestas comunidades agrícolas. Sem paragens em Santa Rosa de Tastil, continuamos por Finca La Encrucijada para subir o penhasco Muñano e atingir Abra Blanca, a mais de 4000 metros acima do nível do mar. Dali continuamos até à modesta cidade mineira de San Antonio de los Cobres, onde provamos um belo bife de lama.

A conselho de locais, e pela sabedoria dos seus antepassados dispersos pela Cordilheira dos Andes, descobrimos que para prevenir o mal de altitude nada como “coquear” algumas folhas de coca. Esta planta narcótica da família das Erythroxylesd, nativa da Bolívia e do Peru (Erythoxylon coca) era exaltada pelos incas que a utilizavam até como moeda de troca. Para melhor cumprir com este arraigado costume – sobretudo entre os habitantes do vale Calchaquí – basta deixar algumas folhas no canto da boca e apenas sugar o sumo libertado, quando em contato com a saliva.  A realidade é que neste mundo andino esta planta serve de base a uma infinidade de produtos, desde chá a farinha.

Mas a estrada esperava por nós e as Salinas Grandes também. Em verdade e quando se fala em desertos de sal, o Salar de Uyuni, na Bolívia, parece ser a referência mais óbvia, todavia tal não significa que essa seja a única opção para apreciar uma planície branca e salgada na América do Sul.

Embora bem mais modestas, as Salinas Grandes, as terceiras maiores do mundo, exibem uma crosta de sal com cerca de meio metro de espessura, remanescência de um lago que secou há milhares de anos atrás.

A 3550 metros acima do nível do mar, as salinas têm um branco tão luminoso capaz de espelhar o céu. Aquele pedaço de terra com sabor agita a nossa noção de espaço e sentido de direção, afinal um ponto que parece longe está, na verdade, a poucos metros de distância.

Esta região conta com as estradas curvilíneas da Ruta Nacional 52, na Costa de Lipán, que serpenteiam as paisagens da Quebrada de Humahuaca, do Nevado do Chanhi e da Cordilheira dos Andes, dando-nos a possibilidade de ver lamas, vicunhas, condores e suris.

No ponto mais alto do trajeto alcançam-se 4170 metros de altitude, na Abra de Potrerillos.

Ainda nesse percurso visitamos Purmamarca, um local que parece ter parado no tempo, quão bem preservada está a sua arquitetura original do século XVII.

“Cidade da Terra Virgem”, em língua quéchua, este local foi uma referência do antigo Caminho Inca. Com origens pré-hispânicas, é de evidenciar o seu planeamento centrado em torno da igreja de Santa Rosa de Lima. Atualmente, a construção baseia-se sobretudo em adobe, argila e palha com telhados de cardon (cacto). Este local é ainda popular devido ao Morro de Sete Cores (Cerro de los Siete Colores), uma montanha que exibe vaidosamente sete cores, embora a contraluz da tarde não nos tenha permitido apreciar o esplendor dessa obra da mãe natureza.

Exausta, mas satisfeita por encontrar e percorrer mais uma estrada da minha vida, pensei novamente em Kerouac, desejando que, em cada quilómetro de asfalto ou terra batida, continue a encontrar as únicas pessoas que me interessam “aquelas que são loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas; as que desejam tudo ao mesmo tempo. As que nunca bocejam ou dizem algo desinteressante, mas que queimam e brilham, brilham, brilham como luminosos fogos de artifícios cruzando o céu.”

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