30 Setembro, 2018

Amor como o dos pinguins

Canal Beagle, Argentina

By In América, Argentina

Chegara o dia em que eu e o Viajante Ilustrador navegaríamos pelo Canal Beagle, um estreito que separa as ilhas do arquipélago da Terra do Fogo e que deve o seu nome ao navio britânico HMS Beagle. Na última das suas duas viagens pela América do Sul, contou com a presença de Charles Darwin que ali começou a escrever sobre a sua teoria da evolução das espécies, mais tarde partilhada ao mundo através do incontornável livro “A Origem das Espécies”. Durante esta experiência visitámos a Isla de los Lobos e a Isla de los Pájaros – ilhotas nas quais é possível observar reservas de leões-marinhos, cormorões reais (que são muito parecidos aos pinguis), albatrozes, patos e gaivotas – e as Islas Bridge, onde viviam os yámanas antes da chegada dos colonizadores. Neste percurso conhecemos também o Faro Les Éclaireurs (que significa Farol dos Vigias), vulgarmente apelidado de Farol do Fim do Mundo, monumento símbolo de Ushuaia.

“Se a manhã já havia sido especial, esperava-nos uma tarde igualmente promissora, com uma ida à Estância Harberton.”

O seu fundador, o missionário anglicano Thomas Bridges, para além de ter mantido uma boa convivência com os nativos da Terra do Fogo, foi o autor do primeiro dicionário yámana-inglês. Aqui vale a pena conhecer o Museu Acatushún, devendo o seu nome a uma expressão usada pelos nativos para se referirem à zona em que se localiza este museu-laboratório. Apesar de aparentemente humilde e simples, é o resultado de mais de trinta anos de investigação científica da sua criadora, Natalie Goodall, possuindo uma coleção de cerca de 2700 exemplares de esqueletos de aves e mamíferos marinhos do extremo sul. Dali seguimos para a mágica Isla Martillo, ou a célebre Pinguinera, que abriga uma colónia de milhares de pinguins no seu período de reprodução, sendo possível admirar três espécies – Pinguim de Magalhães, Pinguim Rei e Pinguim Papua –, mas somente entre os meses de outubro e abril. A maioria dos Pinguins de Magalhães exibe uma faixa branca na cabeça e uma faixa negra que contorna o peito e são nadadores exímios. Já os Pinguins Rei, para além de poderem atingir quase um metro de altura e pesar até 17 quilos, a sua diferença está sobretudo na cabeça e no dorso, cuja coloração é de um laranja intenso em contraste com o preto. Por sua vez, os Pinguins Papua (ou de Gentoo), facilmente reconhecidos pelo seu bico laranja vivo e pela sua mancha branca na cabeça, são os terceiros maiores da sua espécie, sendo apenas precedidos pelo Pinguim Imperador e pelo Pinguim Rei. Ademais alimentam ainda o curioso facto de serem a ave mais rápida do planeta debaixo de água. Os pinguins formam casais monogâmicos que dividem os cuidados com os ninhos e filhotes.

 

Ali, completamente deliciada com estas encantadoras aves a centímetros de distância, recordei uma conversa que tive com uma menina muito especial, aquando da nossa ida ao Nepal em 2015, na qual ela me disse que gostaria de ser professora e ver um pinguim… Nessa tarde ambas sonhámos com uma eventual ida à Antártida, esse deserto branco e gelado. Perguntei-lhe na altura se ela sabia que aquelas aves bem-vestidas faziam longas caminhadas pelo continente, enfrentando tempestades? Que encaravam a morte, com coragem, ao cruzar-se com bichos maus e ferozes? Ou que mergulhavam em águas profundas, tudo para encontrar o amor verdadeiro?

“Dela apenas restou um silêncio circunspecto interrompido pela noite, aquando da hora de ir para a cama, em que me abraçou e segredou que quando fosse grande queria ter um amor como o dos pinguins!”

Reviver este sublime momento na Pinguinera voltou a inflamar o meu desejo de um dia poder visitar a Antártida. Talvez tenha precisado de alcançar o afamado “Fim do Mundo”, para chegar à porta de entrada de um “Novo Mundo”…

 

 

“Won’t you open for me / The door to your ice world / To your white desert /

I just want to stare/ Out over these snowfields / Until we are one again  (…)

Everything is calm / At the end of the planet / In our white desert /

The sun kissed the ice / It glistens for me /

And we are one again / belong to the frozen world /

When the ice begins to thaw/ Becomes the sea /

Oh, you will see / How beautiful we can”

[The Frozen World, de Emilie Simon]

 

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