16 Setembro, 2018

Caminhada ancestral pelo Parque Nacional Tierra del Fuego

Ushuaia, Argentina

By In América, Argentina

Já no Parque Nacional Tierra del Fuego, todas as leituras da noite anterior passaram a fazer mais sentido, dando-nos a possibilidade de continuar, entre momentos de contemplação da nossa caminhada, a compreender melhor a história e as gentes daquela região.

Assim, e para além do navio HMS Beagle sob o comando de FitzRoy, também a realidade vivida na Terra do Fogo atraiu, em 1881, uma expedição antropológica francesa que acabou por levar mais de uma dezena de membros da etnia kawéskar, um outro povo da região, para serem expostos no Bois de Boulogne em Paris e no Jardim Zoológico de Berlim.

Mais um episódio que antecipava a bestialidade que se avizinhava, ou não tivessem por esta altura novos habitantes começado a procurar estas terras, incitados ora pela descoberta de ouro, ora pela auspiciosa indústria da produção de lã. Se os nativos selk´nam estranharam inicialmente a aparição de ovelhas naquela que era a sua terra, a verdade é que rapidamente perceberam que estas eram muito mais fáceis de caçar comparativamente aos velozes guanacos. Porém, foram atraiçoados por um passado de terras livres e sem fronteiras, sendo-lhes assim difícil compreender o conceito de propriedade, circunstância que desencadeou um conflito, transformando rapidamente os caçadores aborígenes em presas… Os impiedosos capatazes das estâncias não demonstravam qualquer dificuldade em localizá-los e matá-los, valendo a morte das mulheres mais dinheiro que a dos homens, pelo simples facto de garantir o término da descendência da etnia. Conta-se mesmo que os novos proprietários chegaram a envenenar uma baleia encalhada para matar dezenas de índios de uma só vez.

Num autêntico genocídio, estima-se que num intervalo de 10 a 15 anos, entre o final do século XIX e o início do século XX, a população terá reduzido de aproximadamente 3 000 para cerca de 500 selk’nam, que acabaram por ser capturados e incluídos em congregações missionárias, a fim de tentar de resgatar as suas almas e eventualmente a sua etnia.

Mas a intervenção dos missionários apenas conduziu à destruição desta cultura, quer pela mudança dos seus meios de subsistência e respetivos modos de vida como à introdução de epidemias mortais. A eventual almejada salvação desta etnia tornou-se em si mesma na sua fatalidade, acabando por morrer a última selk’nam genuína, Angela Loij, na década de 70.

Quanto aos yámanas, o seu destino foi semelhante, embora ainda que um pouco mais poupados da ira assassina. Instalados durante mais de 10 000 anos na Ilha Navarino, ao sul do canal de Beagle, onde se situa a povoação mais austral do mundo, Puerto Williams, aqui restam apenas mestiços, que há muito abandonaram o seu modo de vida, subsistindo atualmente de artesanato e apoios governamentais, e a última yámana pura, de nome Cristina Calderón, já conta com 90 anos de idade.

Revista a história naquele que é o parque mais austral do planeta e o único na Argentina, com trajetos pedestres que combinam mar, lago e montanha ou não fosse possível absorver a beleza da cordilheira chilena, terminamos o trajeto daquele dia com o marco final da estrada mais a sul do planeta, a Ruta 3 (a qual faz parte da Estrada Panamericana, que liga todos os países do continente americano com exceção de cerca de 130 quilómetros na região do Parque Nacional de Darién, área de floresta densa entre o Panamá e a Colômbia), e com a visita ao célebre Posto dos Correios do Fim do Mundo, onde é possível carimbar o passaporte e enviar um postal dos confins da América do Sul.

 

De regresso à pacata, bonita e fria Ushuaia, apelidada “Cidade do Fim do Mundo”, não deixa de ser curioso pensar na sua peculiar localização por estar  mais próxima da Antártica do que da capital do seu próprio país. Fundada em 1884, a verdade é que acabou por crescer pelo facto de, logo após a divisão de fronteiras com o Chile, o governo argentino ali ter construído uma prisão, atualmente convertida em museu. Mas a fome apertava e depois daquele passeio nada como desfrutar de uma centolla (caranguejo gigante) ou de uma merluza-negra…

 

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