2 Setembro, 2018

Magalhães e as tribos da Terra do Fogo

Um pé no Chile e outro na Argentina

By In América, Argentina, Chile

Rumo a sul, apenas paramos quando alcançámos o Estreito de Magalhães, descoberto pelo navegador Fernando de Magalhães que se notabilizou por ter organizado a primeira viagem de circum-navegação ao globo de 1519 até 1522, alimentada pelos propósitos de descobrir um caminho marítimo para a Índia e de provar que o planeta seria redondo. Desta feita, foi na primavera de 1520, a serviço do Rei de Espanha, que Magalhães comandou esta tão desejada expedição denominada de Armada das Molucas e acabou por descobrir aquele lendário estreito. Localizado entre o continente da América do Sul, a chamada Terra do Fogo, e o Cabo Horn, o Estreito de Magalhães trata-se de uma passagem navegável com cerca 600 quilómetros de extensão entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Mas que não se pense que tal achado foi fácil, pois para além de ser formado por inúmeras enseadas, bancos de areias e falsas passagens, exibe exíguos quilómetros de largura, águas geladas e condições climáticas tidas como das piores do mundo, devido aos fortes ventos e grandes ondas.

Chegados à outra margem, pisamos o mítico arquipélago da Terra do Fogo, situado no extremo sul do continente americano e formado pela Isla Grande (bem como por outras ilhas menores, na sua maioria, montanhosas e cobertas de neve todo o ano), sendo a sua superfície partilhada pelo Chile e pela Argentina. Dali continuámos o nosso itinerário até Río Grande, acabando por pernoitar na Estancia Las Hijas, onde fomos recebidos por Carol e Richard Daniels que nos prepararam um tradicional jantar de cordeiro patagónico assado. Durante o serão tivemos oportunidade de ler um pouco mais sobre a Terra do Fogo, preparando assim a nossa chegada, no dia seguinte, a Ushuaia e ansiada visita ao Parque Nacional Tierra del Fuego, que cobre desde a Serra Injoo Goiyin, ao norte do Lago Fagnano, até à costa do Canal de Beagle. Em 1960, devido à sua importância histórica e biodiversidade de fauna e flora, transformou-se numa área protegida, havendo mesmo a existência de vestígios arqueológicos na baía de Lapataia, outrora ocupada pelos povos coletores-caçadores selk’nam (onas) e yámana (yagán).

O primeiro trata-se de um povo nómada que, no século XIV, ingressou na ilha, tendo mesmo apelidado a Ilha Grande da Terra do Fogo de Karukinka (Nossa Terra). Ocupava o centro e o norte da ilha, subsistindo da caça de guanaco e de outros animais menores, assim como de frutos do mar. Por seu turno, os yámanas mantinham-se a sul e pelas ilhas mais pequenas, resistindo com o que o mar tinha para oferecer. Conta a história que, aquando da passagem no estreito, várias fogueiras, centenas delas, chamaram a atenção de Fernão de Magalhães, assim como da sua tripulação, percebendo depois que estes aborígenes as faziam ao redor dos acampamentos e outras mais pequenas nas suas canoas para se manterem aquecidos já que, apesar do austero frio austral, não usavam qualquer roupa ou proteção pois tinham uma temperatura corporal superior à dos exploradores. Foi graças a esta conclusão que o arquipélago acabou por ficar conhecido por Terra do Fogo. Apesar de tal facto, os europeus não se interessaram logo por aquelas ilhas perdidas e só em 1830, com a passagem por ali do britânico Robert FitzRoy e do seu barco de pesquisas Beagle, se mudou o rumo da história… Este célebre capitão teve a ideia de capturar quatros yámanas e levá-los para a Inglaterra. Um deles morreu assim que chegou a Londres, mas os outros três sobreviveram e desfrutaram dos seus dias de glória, tendo mesmo sido recebidos pelo rei! Durante esse ano, foram vestidos, educados, doutrinados e até aprenderam a língua inglesa, afinal FitzRoy sentia-se responsável por eles e tentou tratá-los o melhor possível, embora que à sua maneira… Um ano mais tarde, numa segunda expedição, o capitão pagou do seu próprio bolso o retorno dos nativos à sua terra natal, e junto com os três, um missionário e um jovem naturalista de nome Charles Darwin. A ideia era estabelecer contato e, eventualmente, evangelizar e civilizar todos aqueles pobres selvagens… Conquanto, o bem-intencionado plano não foi bem-sucedido, bastando poucos meses para que os três nativos se desfizessem das roupas e voltassem a viver como o seu povo….

E nisto revivi aquela música que todos trazemos no coração:

“Tu pertences a ti / não és de ninguém (…)

Quando alguém nasce / nasce selvagem / não é de ninguém”

 

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