8 Julho, 2018

O dilúvio patagónico

Parque Nacional Torres del Paine, Chile

By In América, Chile

Neste novo amanhecer seguimos até Puerto Pudeto, local de onde atravessaríamos de catamarã o Lago Pehoe. Com origem no idioma indígena tehuelche, Pehoe significa escondido, ou não se localizasse mesmo no centro do Parque Nacional Torres del Paine entre os lagos Sarmiento, Nordenskjöld, Grey e Toro.

“Apesar do gélido e combativo vento, a travessia por aquele lago foi, desde logo, uma experiência incrível quer pelas suas belas paisagens, quer pelos seus hipnotizantes mantos de água esmeralda”.

Contudo, é justo ainda dizer que a sua popularidade se deve também ao facto de a Guarderia Pudeto, situada nas margens do lago Pehoe, ser um dos pontos de desembarque mais usados por passageiros que chegam a Torres Del Paine de autocarro, desde a cidade de Puerto Natales.

Lograda a outra margem do lago, lá partimos em direção ao Vale Francês num exercício de paciência e contemplação entre constantes subidas e descidas até ao tão desejado Miradouro Francês. Entre subidas e descidas contornámos a encosta sul da majestosa Paine Grande com mais de 3 000 metros e o Lago Skottberg lamentando, contudo, os vestígios de um imenso incêndio que, em 2012, mutilou Torres del Paine, por pura imprudência de um turista que resolveu fazer fogo em área proibida. Finalmente alcançámos o Glaciar Francês, localizado nas encostas do Paine Grande, com as suas persistentes quedas de neve e gelo, assim como os sedimentos negros dos picos gémeos apelidados de Cuernos del Paine, outros dos rochedos mais impressionantes deste parque, dos quais brota uma enorme brecha a meio, que nos brinda com uma cascata.

Atordoados mas com uma vontade férrea de ir mais além, perspetivamos rumar ainda até ao Miradouro Britânico, que seria para nós a cereja no topo do bolo daquilo que o Circuito W nos poderia oferecer… Mas se o vento já nos havia alertado da sua fúria, começava agora a chuva a agoirar-nos os planos. Incertezas confirmadas pelo nosso estimado companheiro de caminhadas, o nativo e experiente Jorge. Este perspicaz e curioso chileno, enquanto nos ouvia sonhar, rabiscava o chão com o pé, olhava respeitosamente o céu e lamentava entre dentes “Chicos, chicos!”, aconselhando-nos assim a recuar na intenção de prosseguir. Ele pedia que confiássemos nele, ou não estivessem aqueles carreiros mapeados nas palmas das suas mãos, para além de identificar melhor as manhas do clima patagónico que as das mulheres. E nós, desconfiados e até um pouco contrariados, acabamos por ceder, ao que regressamos até Puerto Pudeto, apenas com uma breve paragem no Acampamento Italiano. Porém se a chuva começou por cair de forma ligeira e despreocupada a certa altura uma tormenta desabou sobre nós e acompanhou-nos sem tréguas durante os 10 quilómetros de regresso!

  

 

 

“Durante aquele regresso turbulento, encharcado e lamacento em que a força da chuva acabou por destruir mesmo um acesso por entre ribeiras, obrigando-nos a atravessar por entre pedras e água… senti-me a vivenciar o mito do dilúvio”.

Propagado por inúmeras e diferenciadas culturas, a verdade é que este mito parte sempre do conceito de uma grande inundação ordenada por uma divindade, a fim de abalar a Humanidade e permitir a sua renovação, propondo ainda uma medida de purificação. Ao que nesta narrativa simbólica, nos surge de imediato a necessidade de um herói que, guiado pela própria divindade geradora da devastação, assegura que tal renascimento aconteça. Em verdade, durante aquela provação, renunciei à necessidade de pedir complacência divina ou de procurar heróis e simplesmente caminhei, caminhei como se num sonho estivesse, não sabendo assim o que me esperaria a seguir. Até que, sem qualquer noção do tempo, deparei-me ao longe com umas silhuetas em que os braços se agitavam euforicamente. O Viajante Ilustrador e o Jorge embora completamente encharcados, gélidos e fatigados, estavam absolutamente radiantes. Nisto senti-me a despertar daquele estado onírico e, subitamente, o meu ânimo elevou-se espiritualmente pela experiência de superação, aquecendo o meu corpo glacial e tiritante, que flutuou vitoriosamente até à reta final.

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