18 Junho, 2018

O Lado Selvagem

Parque Nacional Torres Del Paine, Chile

By In América, Chile

“Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido.”

Henry David Thoreau

Estas palavras pertencem a um amante da natureza que, em 1845, decidiu isolar-se perto do Lago Walden, numa cabana por si construída, subsistindo solitariamente. Crítico feroz de uma sociedade em crescente consumo e capitalização, este anarquista individualista, como muitos o chamam, optou firme e veementemente por não participar num sistema que rejeitava por completo. Consubstanciado numa das maiores referências da literatura norte-americana, e mais de um século depois, acabou por servir de inspiração a Christopher McCandless, um jovem recém-formado de 22 anos que, no início dos anos 90, decidiu viajar sozinho e sem rumo pelos Estados Unidos em busca de liberdade e do sentido da vida, sem avisar a família ou deixar quaisquer pistas. Durante esta jornada de dois anos, e na qual adotou o nome de Alex Supertramp, este corajoso ou inconsequente viajante decidiu ir mais longe e partiu para o Alasca. Em verdade, é sobre esta história de vida que Jon Krakauer baseou o seu livro “O Lado Selvagem”, e que mais tarde foi adaptado de forma extraordinária aos cinemas por Sean Penn, contando ainda com uma sublime banda sonora de Eddie Vedder.

Foi entre reflexões sobre esta história e ao som de Guaranteed que nos despedimos de El Calafate. Pela frente aguardava-nos um longo caminho, durante a qual passaríamos pela lendária ruta 40 até Cancha Carrera – Cerro Castillo, onde cruzaríamos a fronteira entre a Argentina e o Chile. Dali começamos a explorar a estonteante beleza de lagos e vegetação até chegar ao Parque Nacional Torres Del Paine, localizado na Região de Magalhães ao sul da Patagónia chilena e declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO, exibindo uma área de aproximadamente 242 000 hectares. Porém, durante o caminho, muitas foram as paragens para observar e fotografar guanacos e variadíssimas aves como o condor.

Já no parque fizemos uma breve pausa no acampamento para deixar as mochilas e beber algo quente, na tentativa de aproveitar a última luz do dia para uma caminhada de reconhecimento, ou não nos esperasse na madrugada do dia seguinte uma árdua prova de aproximadamente 22 quilómetros (ida e volta): o início do icónico trekking W! Este trilho parte do Hotel Las Torres, percorrendo o Vale Ascencio até um miradouro natural, onde um pequeno glaciar alimenta uma lagoa de águas azul-turquesa, rodeada por gigantescos pilares graníticos, os guardiões daquele pedaço de perfeição.

“Se no início este é um caminho aberto, a jeito de ziguezague interminável, mais perto do local mais alto da primeira metade do percurso predominam as subidas na margem direita do Rio Ascencio, das quais já é possível avistar o Refúgio Chileno, cravado no meio do vale”.

Após este local de pausa, é fascinante observar através da estepe patagónica toda aquela natureza indomável e superlativa em estado bruto, na qual avistamos ora bosques de lengas, ora glaciares e montanhas alvas que se erguem da orla de lagos de cor azul-turquesa. Uma transcendente sensação de paz convive cúmplice e intimamente com uma natureza selvagem, onde prevalece um clima adverso e instável, de bastante frio e ventos fortes. Na última parte, em que o cansaço já teima em aparecer, existe uma íngreme e irregular escadaria natural que nos leva até ao destino final. Porém, o frio, a neblina, a neve e a chuva vão testando a nossa verdadeira motivação de alcançar um local realmente mágico…

Faltam-me o fôlego e as palavras, e acabo por abraçar euforicamente o Viajante Ilustrador. Durante este instante, recordo como Christopher McCandless terminou a sua narrativa, “A felicidade só é real quando compartilhada…”, e enlaço-me ainda mais no meu companheiro de jornada!

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