6 Junho, 2018

A (verdadeira) Muralha de Gelo

Perito Moreno, Argentina

By In América, Argentina

“Winter is Coming…”

Foi com esta frase que o Viajante Ilustrador me despertou na madrugada do dia em que visitamos um dos mais icónicos glaciares, o Perito Moreno. Esta referência à série televisiva Guerra dos Tronos, uma das preferidas de ambos, fez-me sorrir, não por um fortuito encontro com o Jon Snow – aquele que, segundo Ygritte, nada sabe, embora Daenerys pareça, em muito, discordar –, mas pela “viagem na maionese” que esta me proporcionou durante o percurso de cerca de 80 quilómetros, entre El Calafate e a longa muralha de gelo. À semelhança da série, este início de jornada até à Patagónia já adivinhava o que dali a dias encontraríamos: uma harmonia entre a história de tempos passados e a magia do presente. Tal como nos complexos enredos das personagens, mergulhar no selvagem mundo patagónico faz-nos reconquistar um silêncio ancestral, que só a Mãe Natureza ensina. Recorda-nos também que, apesar da dureza da vida, há que transformar as nossas fraquezas em motivos de força e singularidade. Libertos de rótulos, é certo que seremos mais fortes e mais capazes de expandir o nosso olhar sobre o Outro. Afinal, quer os heróis quer os vilões têm as suas histórias, podendo até trocar de papéis a certa altura da trama, ou não fosse a linha entre eles tão vulnerável e ténue. E se no fim da história, todos os homens devem morrer – “Valar morghulis” –, há que saber desfrutar de forma sábia de cada vitória.

 

 

Já no Parque Nacional Los Glaciares, situado na província da Santa Cruz e património da humanidade pela UNESCO desde 1981, é possível avistar o Lago Argentino, o Lago Viedma e centenas de glaciares, no qual o Perito Moreno é o mais conhecido, devido à sua facilidade de acesso. Basta caminhar pelos longos conjuntos de passadiços que serpenteiam a península para admirar aquela gigante muralha branca-azulada ou mesmo embarcar num pequeno passeio de barco para ver mais de perto uma das paredes do glaciar. Todavia, o momento mais aguardado é sempre a queda de um novo bloco de gelo no Canal dos Tempanos. Em verdade, poucos vão tendo a sorte de assistir ao espetáculo da rutura, ou seja, quando o crescimento dos glaciares bloqueia a passagem do afluente e, com a pressão da água, massivos blocos de gelo se soltam. Em todo o caso, não há que desanimar, pois é muito comum a existência de pequenos desprendimentos, que só por si já provocam ruidosos e assustadores estrondos, como se dali se estivessem a aproximar os dragões de Daenerys, abrindo assim uma violenta trovada nos céus. Situado na cordilheira dos Andes, limite natural entre a Argentina e o Chile, o Perito Moreno apresenta assim uma extensão de 250 km² e uma altura de 60 metros de altura, possuindo uma frente de cinco quilómetros. Considerado o terceiro maior glaciar do planeta, depois da área de gelo da Antártida e da Gronelândia, é também um dos poucos que se mantém estável, chegando a aumentar até 2 metros por dia!

Já de regresso a El Calafate, o Viajante Ilustrador partilhava comigo que aquela cidade tinha o nome de um arbusto típico da região, que dava flores amarelas e frutos azul violeta e começou a ler uma história sobre um chefe aonikenk que tinha uma linda filha chamada Calafate de olhos cor dourada. Um dia esta conheceu um jovem selknam, e acabaram por se apaixonar perdidamente, embora sabendo que as suas respetivas tribos não aceitariam esta união. Porém, o amor foi mais forte e decidiram fugir, até que alguém descobriu o plano e foram denunciados ao chefe aonikenk. Enfurecido, este recorreu ao xamã da tribo que acabou por transformar a pobre moça num arbusto, apenas permitindo que os seus olhos continuassem a contemplar o lugar que a viu nascer. Daí, a cada primavera, o calafate se cobrir de flores amarelas, reminiscência dos olhos da jovem aonikenk. Arrependido do mal que havia causado, o xamã fez com que as flores do calafate ao cair se transformassem num delicioso fruto de cor púrpura, coração da rapariga aonikenk. Assim reza a lenda que aquele que provar calafate, voltará. Terminada a história, o Viajante Ilustrador tirou da mochila uns quantos frutos de calafate e, todo satisfeito, saboreou-os com os olhos postos no, já distante, Perito Moreno…

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