22 Maio, 2018

O último tributo porteño: Parrillas, helados y puertas cerradas

Um pé em Buenos Aires e outro em El Calafate, Argentina

By In América, Argentina

De regresso a Buenos Aires, após uma breve passagem por Colonia Del Sacramento, seria imperdoável se não nos despedíssemos a preceito desta arrebatadora cidade. Além do tango, ali é obrigatório entregar-nos ao pecaminoso prazer de provar uma suculenta carne e degustar um bom e espirituoso vinho. Em verdade, neste centro urbano abundam as parrillas, nas quais a carne é assada numa grelha própria, utilizando-se para tal lenha de maior densidade, a fim de garantir temperaturas mais elevadas. Aliando estas condições a um correto corte da peça e ao uso moderado de sal, garante-se que o sabor defumado da brasa seja absorvido na perfeição. E assim começou a nossa noite no Don Julio, em Palermo Viejo, um restaurante de ambiente rústico e familiar, do qual fazem da técnica da parrilla um desporto nacional. A experiência gastronómica não terminou sem antes irmos em busca dos célebres gelados argentinos, que herdam a sabedoria dos emigrantes italianos. Que momento deliciosamente feliz desfrutámos na helateria Cadore!

Apesar de completamente enfartados e conscientes de que, na manhã seguinte, teríamos de estar bem cedo no aeroporto para viajar até El Calafate, o Viajante Ilustrador tirou-me de tal maneira o juízo que, ainda naquela noite, percorremos mais um par de bares secretos. Este conceito não é de todo novo, existindo desde a década de 20, aquando da instauração da Lei Seca nos Estados Unidos, principalmente nas grandes cidades como Nova Iorque e Chicago. Nessa época, a produção, distribuição e venda de bebidas alcoólicas no país era ilegal, motivo pelo qual surgiram estes bares, também chamados de “speakeasy”.

Se há dias atrás havíamos estado no misterioso Frank’s, no qual é necessário descobrir uma senha de entrada através de dicas postadas diariamente na rede social Facebook, acabamos por começar o serão no 878 (ocho, siete, ocho), um espaço intimista e até um pouco romântico, para terminar a noite no impetuoso e vibrante Victoria Brown, um bar que ficará para sempre na memória do Viajante Ilustrador. Foi uma espécie de amor à primeira vista, ou não ficasse o meu companheiro de viagem completamente encantado com a estética e decoração industriais daquele local, onde a cor cobre e a luz baixa, evidenciam um pretensioso relógio de parede, com mecanismo visível, e um gerador elétrico de 1880 que dão um ar de depósito da Revolução Industrial dos anos vitorianos. Conta-se que, na década de 1860, a rainha Vitória começou a ter uma relação muito próxima com um criado escocês de nome John Brown, acabando por dar azo a rumores caluniosos de que os dois mantinham uma romance e que até se tinham casado em segredo, começando os jornais da época a chamar a rainha de Mrs. Brown, enredo este que já serviu de inspiração a um filme e até a obras de arte. Daí o sugestivo nome, Victoria Brown!

E ao sabor de um cocktail e de uma conversa discreta, mas inevitavelmente intensa, como o espaço pedia, a voz de Nina Simone serpentou por entre a mente do Viajante Ilustrador, que logo começou a acompanhar a retumbante e cruelmente real melodia de Feeling Good…

Birds flying high you know how I feel

Sun in the sky you know how I feel

Breeze driftin’ on by you know how I feel (…)

It’s a new Dawn, It’s a new day

It’s a new life

For me

And I’m feeling good…

A vibração desta canção continuava na manhã seguinte a ecoar dentro de nós, dando-nos uma reforçada energia, apesar do cansaço, da sonolência e talvez alguma réstia de ressaca, aquando da chegada à remota e pequena cidade de El Calafate, localizada no sul da Argentina, mas próxima da fronteira com o Chile e, mais importante, porta de entrada para a mítica Patagónia. Não podíamos estar mais entusiasmados, pois ali começava uma nova aventura, chegar até onde sempre desejamos ir: o fim do mundo. E se os nossos amigos Joana e Pedro brincavam connosco, escrevendo-nos para termos cuidado para não cairmos do mundo abaixo, nós trauteávamos novamente…

And this old world is a new world

And a bold world

For me (…) Stars when you shine you know how I feel

Scent of the pine you know how I feel

Oh freedom is mine

And I know how I feel…

 

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