26 Abril, 2018

Arte, história e novas tendências

Retiro, Recoleta e Palermo (Buenos Aires), Argentina

By In América, Argentina

Após uma matutina caminhada exploratória pelo bairro Retiro, chegamos ao coração de uma outra zona também nobre da cidade, a Recoleta. Assim, entre o Cemiterio de La Recoleta e a escultura Floralis Generica de Eduardo Catalano, ali estava o encantador Museo Nacional de Bellas Artes, no qual habitam obras de vários artistas de renome mundial como Picasso, Manet, Monet, Goya, Renoir, Van Gogh e Rodin, assim como de pintores e escultores argentinos como Aizenberg, Alonso, Cándido Lopéz, Pueyrredón e Berni.

Dali seguimos para o Cemiterio de La Recoleta, um dos pontos mais famosos de Buenos Aires. O cemitério foi fundado em 1822 e sempre serviu como espaço para membros de famílias aristocráticas e políticos serem sepultados. Atualmente  trata-se de um museu com diversos mausoléus e sepulturas de personalidades notórias (como o General Alvear e Evita Perón) e moradores locais, todos agentes ativos na construção da Argentina. Caminhar por aqueles corredores de pedra, fez-me sentir numa imensa biblioteca, no qual perdemos a noção do tempo a folhear uma panóplia de livros de vários géneros literários, desde o romance à comédia dramática. Neste local é mesmo possível seguir uma espécie de roteiro, no qual ficamos a conhecer inúmeras histórias e os seus fantasmas, como a de Liliana Crociati, Davi Alleno, Luz María Velloso e até de Salvador María del Carril e Tiburcia Dominguez, um casal que manteve os bustos virados de costas um para o outro, como prova de que, nem depois da morte, uma eventual reconciliação seria possível. Mas não resisto e partilho as trágicas versões da morte de Rufina Cambaceres, filha do escritor Eugenio Cambaceres e da bailarina italiana Luisa Baccichi. Conta-se que Luisa mantinha relações com o namorado de Rufina, Hipólito Yrigoyen (antigo presidente argentino), e que quando a sua melhor amiga lhe deu tal chocante notícia, no dia do seu aniversário, ela sucumbiu de desgosto. Embora Rufina tivesse despertado mais tarde e saído da sua tumba, ao encontrar-se sozinha e de noite em pleno cemitério mais não teve que um ataque cardíaco. Em verdade, é que dias depois da sua morte, encontraram o caixão danificado, com vários arranhões no interior, dando a entender que não teria falecido quando sepultada e sim sofrido um ataque de catalepsia. Ainda há a aborrecida versão oficial, que explica que o seu jazigo estaria aberto, possivelmente devido a ladrões que tentaram roubar as jóias que a defunta usava. Todavia aprecio a ideia poética do espírito despeitado e inconsolável de Rufina a vaguear por ali, tamanha a dor e traição causadas pelo romance proibido da sua mãe e amado…

O dia avançava e o Viajante Ilustrador ansiava por uma mudança de ares e de narrativas, pelo que pusemos pés a caminho daquele que dizem ser o melhor bairro de Buenos Aires: Palermo. Apesar de, em 1836, o militar e político Juan Manoel de Rosas ter adquirido a maioria das terras que formam o bairro e lá ter construído quer a sua residência, como uma escola de artes, um colégio militar e uma escola naval, só em 1875, com a construção e inauguração do parque 3 de Febrero, o maior espaço verde da cidade, é que Palermo começou a ganhar vida. Este bairro é o mais extenso da cidade e está dividido em áreas mais pequenas como Palermo Soho, Palermo Viejo, Palermo Hollywood, Las Cañitas, entre outros. Os dois primeiros são talvez aqueles com maior movimento portenho e turístico, onde lojas, restaurantes e bares se aglomeram ao redor da Plaza Serrano.

Naquela noite jantamos no iLatina, um antigo “puertas cerradas” situado em Villa Crespo (bairro vizinho de Palermo Soho), considerado o melhor restaurante argentino em 2017, o segundo melhor da América Latina. Esta tendência de restaurantes (e bares) de localização secreta surgiu há alguns anos e está a crescer rapidamente em Buenos Aires. Ali desfrutamos de uma cerimónia em sete passos, complementada com uma seleção exclusiva de vinhos, na qual uma fusão exótica de várias cozinhas sul-americanas nos consegue fazer esquecer a ditadura do tempo e espaço.

 

2 Comments
  1. Maria José Oliveira 5 Maio, 2018

    Gosto, faz-me viajar e sonhar….

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    • viajario 14 Novembro, 2018

      Obrigado pelas palavras, querida Maria José! 🙂 beijinho!

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