8 Abril, 2018

Máquina do tempo

La Boca e Puerto Madero | Buenos Aires, Argentina

By In América, Argentina

“La Boca resiste y propone, entenda-se La Boca resiste e propõe.”

O mote está presente nos vários muros de La Boca e desperta-nos forçosamente para as suas cicatrizes decorrentes de uma realidade de emergência social, mas também de uma realidade de resistência e sobrevivência.

De caráter simples e formado por operários e outros trabalhadores, La Boca originou-se em 1536 com a chegada de Pedro de Mendoza, devendo a sua denominação ao fato de estar localizado na foz do Riachuelo que desagua no Rio da Prata. Mais tarde, com a chegada de diversos imigrantes, sobretudo espanhóis e italianos que vinham em busca de uma oportunidade de trabalho, este cantinho tornou-se no seu lar, surgindo os famosos conventillos, uma espécie de habitação coletiva construída com madeira e chapas de ferro, onde cada quarto era alugado a uma família diferente, partilhando de um pátio central e instalações sanitárias. Estas casas eram pintadas com tintas que sobravam dos navios do porto, daí a sua arrojada paleta de cores.

A rua mais famosa do bairro é chamada de Caminito, outrora uma via ferroviária que seguia até outras partes da cidade. Após o encerramento da ferrovia este espaço foi abandonado. Contudo, graças à iniciativa e esforço da vizinhança, inclusivamente do pintor Benito Quinquela Martín, em meados de 1950, este local renasceu e transformou-se num museu a céu aberto, de grande valor cultural e turístico, mormente pela influência do tango. Benito acabou mesmo por batizar a rua com o nome de Caminito numa homenagem ao título do popular tango de Peñalosa e Filiberto. De origem humilde, este pintor foi um órfão do bairro que acabou adotado por um casal de mestiços imigrantes. Na adolescência começou a frequentar aulas noturnas de pintura, enquanto durante o dia trabalhava na carvoaria familiar. Nas suas obras, retratava a realidade do bairro em que morava, desde a atividade portuária aos operários e suas casas coloridas, passando pela vida boémia. Algumas das suas principais peças podem ser visitadas no Museu de Belas Artes de La Boca, sendo que ali ao lado é igualmente possível visitar a Fundação Proa, um centro de arte contemporânea que se concentra na difusão dos grandes movimentos artísticos do século XX.

“Mas não só de arte e tango vive La Boca, aqui respira-se futebol!”

Pois os mesmos fundadores do bairro, na sua maioria genoveses, criaram ainda neste bairro dois dos mais icónicos clubes do país: o Boca Juniors e o River Plate. A rivalidade resultou precisamente da proximidade entre ambos, e agudizou-se quando o River Plate começou a representar a elite portenha, enquanto o Boca popularizou-se como o clube dos operários. Não se proporcionou uma visita ao estádio apelidado de La Bombonera, uma vez que assentámos que tal só aconteceria se, durante a nossa estadia, surgisse a oportunidade de assistir a um ruidoso, excitante e apaixonado jogo de futebol.

“O dia já ia longo entre caminhadas, pausas, fotografias e notas no diário de bordo pelo que decidimos desfrutar de um final de tarde em Puerto Madero.”

Foi interessante observar e sentir a dicotomia entre aquelas duas localizações, era como se tivéssemos entrado em uma máquina do tempo e acabássemos de ser expelidos para o futuro. Atualmente sofisticado e elegante, Puerto Madero começou por ser um porto usado para armazenar produtos exportados, acabando por ficar ao abandono por mais de meio século. Só nos anos 90 foi revitalizado e hoje é uma das áreas mais concorridas e luxuosas da cidade, funcionando ali escritórios de grandes empresas, bares e restaurantes, hotéis de luxo e até um casino flutuante, a par de espaços verdes que permitem que moradores e viajantes aproveitem o seu tempo como a Reserva Ecológica Costanera Sur. Mas o que destaco é o facto de homenagear as mulheres, visível nos nomes das ruas que exibem personalidades distinguidas nas ciências, artes e política, até à Puente de la Mujer, em que o seu formato é inspirado na figura de um casal a dançar tango, cujo mastro branco representa o homem e a silhueta curva da ponte, a mulher. Foi com esta imagem no olhar, ao lusco-fusco, que decidimos, naquela noite, celebrar todas as mulheres da nossa vida!

 

 

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