13 Março, 2018

A cadência das veredas portenhas

Buenos Aires, Argentina

By In América, Argentina

“Há algum tempo que a ideia de visitar a Argentina me deixava inquietamente agradada, quer pela diversidade irreverente da sua música, quer pela voluptuosidade da sua literatura, ora pela crueza idílica das suas personalidades.”

O momento da decisão aconteceu numa noite de outubro, após ter tido a oportunidade de ouvir Rodolfo Castro, mais conhecido pelo “pior contador de histórias do mundo”. O próprio explicou que se esforçou por ser o melhor, porém constatando que não conseguiria, decidiu tornar-se no pior. Um serão fantástico que me fez, mais uma vez, acreditar na serendipidade das narrativas.

  

Buenos Aires recebeu-nos num domingo de primavera com alguma chuva, pelo que depois de instalados na avenida de Mayo, a meia dúzia de passos da Plaza del Congreso, optámos por almoçar ceviche e beber um pisco no Chan Chan, um autêntico tasco peruano situado nas redondezas, antes da nossa longa caminhada até San Telmo. Aqui prevalece um ambiente tradicional, não obstante a sua afeita tranquilidade que nos permite flanar de forma leve e curiosa por lojas de antiguidades, paralelamente a espaços contemporâneos de moda ou de arte. Neste dia da semana, esta zona assume uma dinâmica ainda mais apaixonante ou não tivesse lugar a famosa Feira de San Telmo, em que as ruas são também elas ocupadas por barraquinhas, nas quais basicamente se vende de tudo.

Naquele vaivém, artesãos, cantores, marionetistas, dançarinos de tango e outros, e o lamento sonoro do bandoneón (instrumento musical semelhante ao acordeão, mas sem teclado e com quadros laterais quadrados ou retangulares) facilmente nos empurram até à Plaza Dorrego. Outrora centro da área residencial da cidade, uma epidemia de febre-amarela, em 1871, levou a que a maioria da população padecesse, forçando à fundação, pelos que escaparam, de bairros novos como a Recoleta. Em San Telmo, as casas abandonadas transformaram-se em refúgios para imigrantes e trabalhadores. É a segunda praça mais antiga de Buenos Aires, depois da Plaza de Mayo, e era onde as caravanas desembarcavam cargas de toda a Argentina.

A poucos minutos do Obelisco e com uma fachada típica italiana, o Mercado de San Telmo é o ponto de encontro obrigatório dos moradores do bairro. Este sítio faz-nos revisitar uma Buenos Aires antiga, em que homens e mulheres seguem atarefados com listas de compras do dia; escovilham espaços de antiguidades – atolados de objetos como brinquedos ou mobiliário e até discos de vinil –; ou naturalmente param um pouco para comer algo como uma empanada de carne e uma cerveja, contrariando assim o veloz passar da vida.

Descansadamente regressamos pela Plaza de Mayo, coração político da cidade e palco frequente de manifestações populares, entre elas a das mães da Plaza de Mayo, que ocorre às quintas-feiras (para exigirem notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar no país), e cercado por icónicos edifícios como a Casa Rosada, o Cabildo, a Catedral e a sede do Banco de La Nación Argentina.

“A noite caía e um espetáculo de tango esperava por nós no Café de los Angelitos.”

Fundado por um italiano, muitas foram as facetas deste local, desde um reduto de gente de mal viver, de radicais, até ao facto de ali o incontornável Carlos Gardel ter celebrado alguns dos seus maiores êxitos.

Durante aquele intenso e bonito momento recordei Julio Cortázar. Assim referido talvez pareça nada dizer, mas são deste escritor as palavras da faixa Rayuela dos célebres Gotan Project. Cortázar distinguia o jazz, mas independentemente desta predileção, acabou por compor letras de tangos e até editou um disco, “Trottoirs de Buenos Aires”.

Naquela noite adormeci ao som deste álbum:

“Yo diré: Ya es muy tarde /

No me contestarán/

ni mis guantes ni el peine, /

solamente tu olor, tu perfume olvidado /

como una carta puesta boca abajo en la mesa (…) Es justo, corazón, la canta el que se queda, /

la canta el que se queda para cuidar la casa.”

Deixe um comentário

error: Conteudo protegido !