26 Fevereiro, 2018

Residência da morte e de milagres

Oświęcim (Auschwitz), Polónia

By In Europa

Quando decidimos visitar a Polónia, procurei livros inspiradores sobre as realidades a que teríamos acesso.

“Acabei por me cruzar com “Os Bebés de Auschwitz”, que relata a história real de Priska, Rachel e Anka, enviadas para Auschwitz em 1944, e tinham um segredo comum: a gravidez.”

 

Embora sozinhas e completamente atemorizadas, sentiam-se decididas, após tantas perdas e lutos, em lutar pelos seus filhos. Esta inacreditável história conta como estas mulheres (extra)ordinárias sobreviveram ao cruel escrutínio de Josef Mengele; superaram a fome e conseguiram esconder o seu estado; e resistiram a uma viagem de comboio até ao campo de concentração de Mauthausen, onde viriam a ser libertadas pelos Aliados. Percorridos sessenta quilómetros de Cracóvia, e mal avistei umas cercas de arame farpado e linhas férreas que, outrora, foram o último destino em vida daqueles que Hitler considerava inimigos, recordei-as.

“À entrada a placa “Arbeit Macht Frei” (o trabalho liberta), asseverou o nosso silêncio.”

Foi neste cenário perverso e irrespirável, que teve lugar o maior e mais terrível complexo de extermínio do regime hitleriano. O campo de concentração de Auschwitz I foi o principal centro administrativo do complexo e foi concebido inicialmente, em 1940, para receber prisioneiros políticos. As cruéis condições de trabalho associadas à escassa alimentação e ausência de higiene levavam a uma elevada taxa de mortalidade entre os encarcerados. Aqui sucumbiram, alguns por meras horas, judeus, comunistas, sindicalistas, antifascistas, democratas, intelectuais, homossexuais, ciganos, portadores de deficiência, testemunhas de Jeová, doentes psiquiátricos, todos aqueles que a arbitrariedade do regime nazi julgasse não ser o padrão do ideal ariano. Mais de um milhão de pessoas foram chacinadas entre 1940 e 1945.

Durante a nossa caminhada pelo campo foi possível ver alguns dos antigos alojamentos e exposições com fotos de época. O bloco 11, por exemplo, era uma prisão dentro da prisão, ou não fosse destinado a todos aqueles que quebravam as regras. Ali é possível testemunhar celas de fome, espaços de 1,5 m² (partilhadas por quatro ou até cinco presos, os quais passavam toda a noite de pé e saiam no dia seguinte para trabalhos forçados), e até câmaras (com um exíguo espaço na parede para respirar, onde os cativos acabavam asfixiados). Muitos outros acabaram fuzilados ou enforcados no Muro da Morte. Noutros blocos estão expostas pilhas de objetos que eram confiscados aos presos à sua chegada, desde botas, malas, óculos até cabelo, que era vendido para a fabricação de tecidos. Foi ainda neste campo que começaram a ser testadas pelas SS (Schutzstaffel) as primeiras câmaras de gás com o altamente tóxico Zyklon B. Josef Mengele, tornar-se-ia numa das figuras mais infames de sempre, ao ponto de ser apelidado de Anjo da Morte, por ter como tarefa a de receber os prisioneiros e decidir com um simples movimento de mão quem viveria e quem seria enviado para o extermínio imediato. Mengele ficou ainda conhecido pelos experimentos médicos macabros que realizava em crianças, mulheres ou homens.

 

A três quilómetros daqui, surgiu Auschwitz II–Birkenau, destinado ao extermínio e, meses mais tarde, Auschwitz III-Monowitz, vocacionado para a exploração extrema da mão-de-obra escrava.

Auschwitz – Birkenau estava equipado com quatro crematórios e câmaras de gás, as quais podiam receber cerca de 2 500 pessoas de cada vez, sendo considerado como parte do plano da Alemanha nazi conhecido como a “Solução Final”. Para evitar o pânico, os soldados afirmavam aos presos que iriam apenas tomar banho, porém a morte era lenta e dolorosa. Posteriormente, os corpos eram verificados em busca de dentes de ouro ou outros valores escondidos na boca das vítimas e carbonizados.

“Há 73 anos, a 27 de janeiro, quando o Exército Vermelho ocupou Auschwitz, permaneciam neste campo sete a oito mil prisioneiros sobreviventes e, ainda que distantes dali, mais meia dúzia deles: três mulheres com os seus bebés Eva, Mark e Hanna.”

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