20 Novembro, 2017

A vida para além da vodka

Varsóvia, Polónia

By In Europa

Naquele par de dias pela cidade, tivemos ainda a oportunidade de conhecer outros pontos de interesse cultural como o Museu da História dos Judeus Polacos, que se situa no antigo coração da comunidade judaica, exatamente na área onde os nazis construíram o famoso Gueto de Varsóvia. Aqui não só ficamos a conhecer a história e a identidade deste povo, como o profundo sofrimento vivenciado durante a II Grande Guerra, incluindo o enclausuramento dos judeus num bairro-prisão. Importa destacar que a Polónia foi um dos países que mais abrigou judeus, pelo que aqui a história começa muito antes do conflito bélico, convidando-nos a uma (longa) viagem desde a Idade Média até à atualidade.

Já o Museu Néon é dedicado à documentação e à preservação de sinalética e placares de neón típicos da era comunista. Desde 2005 que este espaço tem investido na tarefa de identificar e restaurar as reminiscências da campanha de “grande neonização” em todo o antigo Bloco de Leste. Visitar este museu cria-nos um sentido de inventividade, ou não fossem as características únicas desta forma de arte (até então desconhecida) que nasceu da revolução. E mesmo a propósito, ali perto fomos também surpreendidos pela Soho Factory, uma antiga zona industrial ressuscitada pelas jovens gerações, hoje transformada num centro de galerias de arte, lojas de designers e mercados.. uma autêntica incubadora de indústrias criativas da cidade.

Todavia, e de Varsóvia, trago igualmente na memória, com especial afeição, quer as pausas improvisadas no Parque Łazienki ou nos jardins do Palácio Wilanów – um convite à contemplação da natureza e da cultura –; quer as refeições em milk bars (bar mleczny).

“Estes últimos locais, que nos remetem para a nostalgia comunista, não servem leite, nem são bares.”

São sim uma tradição polaca do final do século XIX, cuja denominação assentou em virtude do uso de derivados do leite e de farinha para fazer a maioria dos produtos que, na altura, eram servidos (como a massa do pierogi, um primo das guiozas japonesas).

Após o fim da II Guerra Mundial, perante a destruição massiva da cidade e a emergência do comunismo soviético, os milk bars eram simples estabelecimentos que alimentavam a classe operária em tempos de escassez, suportado com apoios governamentais. Assim, cumpriam-se dois princípios indispensáveis: ser barato e ser farto em comida caseira. Hoje, o cardápio mantém-se tradicional e económico, nunca descurando os bem-ditos cheiros familiares e confortantes, sobretudo em pleno outono…

“Talvez poucos o saibam, mas a verdade é que este país tem uma gastronomia marcante, pois para além do pierogi, é de destacar o placki ziemniaczane (bolinho de batata), polskie naleśneiki (crepes) e paczki (versão polaca dos donuts).”

Clarificada a ideia de que não só de vodka vive a Polónia, seria, contudo, imperdoável não fazer um brinde que seja, a pretexto de celebrar tal conclusão! Para isso, nada como atravessar até à outra parte da cidade, que geralmente passa despercebida, mas que, a nós, despertou a merecida atenção. O bairro multicultural e alternativo de Praga, é uma espécie de underground de Varsóvia que saiu ilesa da guerra e que nos apresenta, de forma fácil e intuitiva, gentes “fora da caixa”.

Inebriada por aquele cenário cinematográfico, é fácil sentir a história a exalar das igrejas (católicas ou ortodoxas), das ruínas e dos edifícios velhos, da arte de rua, e até de lugares onde foram gravados filmes brilhantes como “O Pianista”. Se bem que não deixa de ser interessante constatar, como há poucos anos, este outro lado do Rio Vístula era apontado e manchado pelo delito. Mas que importa isso, logo na hora em que a nalewka nos suplanta, deixando de ser um mero elixir espirituoso de frutas, especiarias, flores ou ervas, para nos destilar, sem qualquer pejo, até à essência, tornando-nos falsamente intatos (tal como Praga)?…

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