11 Junho, 2017

Pés na terra

Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

By In África, São Tomé e Príncipe

“E ao terceiro dia de viagem, aterramos na Ilha de Príncipe! Mais precisamente, 546 anos e 4 dias mais tarde que os primeiros navegadores portugueses, quando aquele pedaço de terra foi denominado de Ilha de Santo Antão ou Santo António Abade!”

Em verdade, o seu atual nome deveu-se à iniciativa do “príncipe perfeito”, D. João II, um rei que tanto estimava o seu único filho e herdeiro, Afonso, Príncipe de Portugal, que em sua honra decidiu batizar de “Príncipe” a ilha mais pequena do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Mal se poderia imaginar que, 16 anos mais tarde, este promissor mancebo iria encontrar o seu fim numa misteriosa queda de cavalo, e o pai, outras tantas angústias de sucessão…

Mas história à parte, é absolutamente idílico aterrar naquela mágica ilha verde, naquele exíguo avião, como que a jeito de uma película de animação. Recordo-me de comentar, com um querido e grande amigo de São Jorge, que aterrar na Ilha de Príncipe nos reportava para a similar experiência vivida no arquipélago dos Açores, sendo que, até São Jorge, aquele vértice das ilhas do triângulo, tem bem mais habitantes do que Príncipe.

   

À nossa espera estava o atento e paciente Micky, um benfiquista ferrenho que outrora desejou ser jogador de futebol, mas que as obrigações da vida acabaram por levar a melhor ao fintar-lhe esse sonho de infância e juventude. Enfim, não fosse a vida estar cheia dessas ousadias superiores…

“Não perdemos tempo e logo nos primeiros vislumbres até Santo António, a cidade que tem lugar no Guiness como a mais pequena do mundo, foi evidente que aqueles dias seriam um antídoto para os males da alma.”

Chegados até à capital – em que a primeira impressão se prende, erradamente, a uma marginal decrépita, edifícios de arquitetura colonial em acelerado estado de degradação e meia dúzia de ruas esburacadas e quase intransitáveis – lá nos atiramos, sob os olhares mirones e curiosos dos nativos, para uma experiência genuinamente local na Pensão Palhota. De imediato, fomos avisados que a luz elétrica falha com frequência e que os restaurantes são poucos, pelo que convém marcar com antecedência, não pela eventual falta de mesa, mas pela ausência de comida.

Inquietos para começar a explorar, principiamos o nosso lento, duro e corajoso trajeto de 4×4, até à Ponta do Sol e depois à Roça Sundy, uma fazenda colonial, outrora casa da família real portuguesa e responsável pela maior produção do cacau e café.

Nesta roça encontram-se plantações de cacau e café, um hospital (todas as grandes roças da ilha tinham um hospital próprio), uma capela e vestígios de caminhos-de-ferro consumidos pela larica do capim e do tempo. Estes últimos serviam as locomotivas que transportavam o cacau entre as roças. Foi também neste lugar que Arthur Eddington (astrofísico britânico do início do século XX) provou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein durante um eclipse total ocorrido em 1919. Contudo, naquele momento não haveria melhor “fórmula mágica” capaz de transformar aquilo que eu sentia (tantas vezes complexo) em algo simples, como um mergulho demorado, naquele mar, em que a paleta de cores oscila entre um verde-água e um azul-cobalto.

Micky quis levar-nos a uma das suas praias preferidas, à Macaco. Ali existiu outrora um projeto de hotel por parte de um português, que não passou disso mesmo, restando agora alguns bungalows, uma piscina de água estagnada e um restaurante engolido pela vegetação galopante.

Naquele cenário, que nos faz recordar a série televisiva Perdidos, é permitido a qualquer sobrevivente de um quotidiano agressivo e implacável, recuperar os afetos de uma infância ingénua e despreocupada, com todo o seu rol de ambições e desafios.

“Naquele fim de tarde, recordei todos aqueles e aquelas com quem nos cruzamos e percebi que todos e todas (sem exceção) pareciam felizes.”

Todos e todas afirmaram ainda, de forma segura e indubitável, que viviam no paraíso ou no melhor local do planeta. E eu dei-lhes (tanta) razão…

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