28 Maio, 2017

Mil mergulhos de sal e de saber

São Tomé e Príncipe, da parte sul da ilha até à cidade de São Tomé

By In África, São Tomé e Príncipe

“Depois de uma noite bem dormida na Roça de São João dos Angolares, era tempo de partir à aventura, no encalço de praias desertas e da selva tropical, naquele que é um paraíso no meio do Golfo da Guiné, sob a linha do equador.”

A primeira paragem foi na bela praia de Micondó, uma enseada de águas tranquilas, rodeada por uma densa vegetação de coqueiros. Após uma breve pausa, na qual o Viajante Ilustrador prescindiu da praia para conhecer uma fratria que, à revelia de seus pais, preferiu trocar a escola por uns banhos sol e mar, voltamos à estrada.

   

Da aldeia de Ribeira Afonso até à Roça de Água Izé, não nos faltaram imagens de gente de rostos gentilmente sorridentes que contavam histórias de superação e esperança. Embora não fossem possuidores de riquezas, aqueles homens e mulheres reiteravam no seu duro quotidiano a bem-aventurança de viver num país onde tudo cresce com uma abundância assombrosa, ou não houvesse, em cada pedacinho de terra, a possibilidade de rapinar umas frutas como bananas, fruta pão, sape sape, canjamanga, abacaxi, abacate, jaca, papaia, safu e mangustão.

A Roça Agua-Izé, também conhecida como “Fazenda da Praia Rei”, foi fundada em 1854, por João Maria de Sousa e Almeida, e tornou-se célebre pelo facto de o seu principal proprietário ser de origem negra. Tornada sede da Companhia da Ilha do Príncipe, foi a primeira roça de São Tomé a implementar a cultura de cacau, possuindo uma das maiores e mais avançadas plantações. Dispunha, inclusive, de um cais próprio para a exportação e uma grande linha férrea.

“Contudo, Água-Izé não tem entradas nem limites bem definidos.”

Na zona baixa localiza-se a casa da administração, as oficinas, as serralharias, as carpintarias e os armazéns, sendo que a área das sanzalas distribui-se ao longo da encosta e os dois hospitais estão implantados na zona alta da estrutura da roça. A maioria dos edifícios existentes data de 1910-1920, incluindo o antigo hospital, erguido no ano de 1914.

Um pouco mais à frente cruzamo-nos com a Boca do Inferno, um local onde o mar é ventado por uma abertura nas rochas, como se nos empurrasse rapidamente, no sentido da cidade de São Tomé. Antes da capital, temos de passar pelo bairro de pescadores do Pantufo ou atravessar vila de Santana.  Pela primeira, serpenteamos a energética vibração são-tomense, pela segunda, encontramos no Club Santana, uma alternativa para quem prefere o conforto de uma praia privativa.

 

Chegados à cidade, aproveitamos para dar uma voltinha pelo mercado para reconhecimento de local, de modo a que pudéssemos ficar a conhecer alguns dos melhores produtos locais daquela ilha, e deambulamos por uma das muitas heranças portuguesas, através de um passeio costeiro pela Baía Ana Chaves até ao Forte de São Sebastião.

Mas rápido se fez noite e com ela veio uma imensa larica, pelo que nos aventuramos à descoberta do tão bem-afamado restaurante da Dona Teté! É no quintal desta linda e perfeitamente arranjada mulher – tal a elegância que ostentava do seu vestido de capolana colorido – que podem ser degustadas diversas iguarias como choco, polvo e uma outra tanta diversidade de peixe como cherne, barracuda, corvina ou pargo grelhados no carvão, preparados com um molho secreto, e acompanhados da famosa fruta-pão assada, banana frita e legumes.

Já para o fim da noite, a Dona Teté sentou-se à nossa beira e, de forma crua e honesta, confidenciou-nos as suas duras escolhas de vida, as suas histórias de amor e desamor, as suas viagens desejadas e concretizadas, as suas recentes perdas e futuras ambições. Uma mulher vitoriosa que aprendeu a sonhar e a temperar a vida dos outros com o coração…

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