24 Abril, 2017

Uma despedida sobre a bruma marroquina

Zagora, Ouarzazate e Marraquexe, Marrocos

By In África, Marrocos

Numa breve pausa para um chá em Zagora, na qual apreciava um bonito ornamento na porta de um edifício, o Viajante Ilustrador apontava, entusiasticamente, na direção das pequenas dunas de Tinfou. Atento à minha distração com tal amuleto, Hammou falou-me de Hamsá, a mão de Fátima, filha do Profeta Mohamed, salientando que este era um símbolo de paciência, fé e resistência contra as dificuldades. De acordo com uma crença comum, a mão de Fátima tem sido um talismã de boa sorte e um dos mais populares no mundo islâmico para a proteção, pelo que as pessoas tendem a pendurá-la nas portas ou nas paredes das casas.

   

Ansiosos por chegar até ao outro lado das montanhas do Atlas, identificamos um conjunto de locais para explorar, na apelidada Hollywood de Marrocos, desde o Museu Kasbah de Taourirt, a praça Al-Mouahidine, os Estúdios de Cinema Atlas, os Estúdios de Cinema CLA até ao Kasbah de Tifoultoute. Por seu turno, o bairro de Tassoumaat, na antiga Medina, mesmo junto ao rio, assim como o lago Al-Mansour Ad-Dahbi, o Kasbah des Cigognes e os mercados foram também referenciados como boas alternativas.

Ouarzazate, à semelhança da maioria das novas cidades no Saara, foi criada para servir de base para a Legião Estrangeira, tendo, no final dos anos 20 do século XX, assumido a forma de centro administrativo por parte dos franceses. Porém, na década de 80, esta cidade desenvolveu-se com a chegada de turistas em busca de aventura no deserto, ganhando especial destaque em virtude da atenção concedida pela indústria cinematográfica às paisagens envolventes. Por aqui filmaram-se grandes sucessos de Hollywood, como Lawrence da Arábia, Gladiador, O Reino dos Céus, O Príncipe da Pérsia, A Múmia, e mais recentemente alguns episódios da série A Guerra dos Tronos. Rodeada por oásis, palmeirais e montanhas desérticas, Ouarzazate possui atrações suficientes para manter ocupado qualquer visitante por uns dias.

“A nossa semana chegava ao fim, e com ela a hora de regressar a Marraquexe.”

Dali partiríamos para outro destino. Contudo, e mesmo antes da despedida, já dava por mim a sentir saudades deste país misteriosamente cativante. Naqueles dias, e graças ao nosso querido e bom amigo Hammou, começamos a entender melhor um pouco da complexa história daquela região, que ao longo dos séculos, foi objeto de desejo de muitos impérios, ou não tivesse sido acometida a várias invasões de árabes e europeus (inclusivamente de portugueses!), tendo apenas conquistado, em 1956, a sua independência!

Após adquirirmos as mais frescas especiarias no mercado tradicional de Mellah, naquela que seria a última das noites em Marrocos, deixamo-nos enrubescer pelo nosso sangue lusitano, ao invocar para a conversa a personagem histórica de D. Sebastião. Conhecido por “O Desejado” ou “O Adormecido”, transformou-se num mito após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Neste último grande debate em terras africanas, entre dois portugueses e um árabe, corajosa e patrioticamente, discutiu-se a contemporaneidade deste mito messiânico, baseado na esperança da vinda de um Salvador, que libertaria o povo e restauraria a glória e o prestígio nacionais, como tão bem Sérgio Godinho entoa no seu tema Demónios de Alcácer Quibir.

Ainda hoje se espera pelo retorno de D. Sebastião que, segundo a profecia, far-se-á numa manhã de nevoeiro, montado no seu cavalo branco, vindo de uma longínqua ilha onde esteve à espera da hora de regressar.

“Ora saturados de um entorpecedor saudosismo, ora de uma ideia derrotista de perda da identidade nacional, ali reiteramos um veemente “basta!”, decidindo, para além de um abraço de profunda gratidão, deixar a Hammou uma visão de esforço e de grandeza sobre os muitos heróis portugueses que acreditaram poder ir mais além, sobre a terra e sobre o mar…”

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