8 Janeiro, 2017

O homem pássaro

Tóquio, Japão

By In Ásia, Japão

   “Afinal, nada como uma orgia gastronómica, repleta de pratos exóticos e com sabores inusitados, para aprendermos o poder dos cinco…”

Poder-se-á dizer que esta poderia ser a sinopse da longa experiência no Mandarin Oriental, no Tapas Molecular Bar. Naquela noite, Kento Ushikubo prometeu seduzir os nossos sentidos através de texturas diferenciadas, apresentações irrepreensíveis e sabores irreverentes, combinando para tal tradições culturais do Japão com a modernidade do mundo atual.

Numa sala com apenas oito lugares a cada jantar, este talentoso chef preparou-nos dezasseis pratos de culinária molecular autoral. E nada mais intrigante como começar esta refeição com a entrega de uma caixa de ferramentas com utensílios estranhamente descontextualizados para aquilo que supostamente era esperado!

Entre uma fita métrica, que se revelou um menu, até a uma pá ou a um martelo com funções reinventadas, assim se desenrolou um serão de duas horas a observar a confeção e a montagem de cada refeição. Durante este período não faltaram exibições de técnicas como a gelificação, a esferificação e/ou a emulsificação, assim como a espetacularidade do azoto líquido, terminando com um truque de magia, em que de um ovo saí um bonito origami. Se a cozinha molecular começou por ser considerada um movimento dos anos 90, em que o objetivo era conseguir uma gastronomia de emoções, de diversão e de um prazer multifacetado, Ushikubo fez mais que jus a esta pretensão.

Na verdade, aquele jantar foi a cereja no topo do bolo de uma jornada num país que tantas vezes me compeliu “a pensar (do lado de) fora da caixa”, solta de quaisquer amarras convencionais.

Mas afinal, em que caixas estão presos os nossos pensamentos? Preconceitos? Aspetos culturais? Regras sociais?…

A oportunidade de trilhar pelo solo nipónico, despertou-me de um sono de comodismo, libertou-me de um engessamento mental, a que tantas vezes nos autocondenamos.

Após o jantar, o Viajante Ilustrador acabou por ficar mais um bom tempo à conversa com o chef. Entretanto tentei formar uma memória, como que a jeito de uma fotografia noturna que obriga a uma longa exposição, da vista sobre aquele 38.º andar…

Ali, pensava em como esta nação milenar tem uma forte ligação com os mitos e as lendas, com a inspiração das crenças e superstições japonesas. Toda a mitologia japonesa apresenta narrativas fortes e envolventes que despertam para uma plenitude de reflexões e ensinamentos… Se atribuir ao país uma nova personagem me pareceu muito ambicioso, divertiu-me a ideia de o fazer com a irreverente cidade de Tóquio. Se esta urbe fosse uma personagem, seria decerto uma figura masculina. Imaginei um homem elegante e sofisticado, que bondosa e pacientemente se procura dar aos outros, embora haja ainda uma parte de si vazia, ou não fosse o seu olhar, por vezes, distante. Imaginei um homem pássaro, tal como o Hiyoku, um pássaro imaginário, de um olho e uma só asa. Assim como o homem, o pássaro sente-se triste e solitário, e não desiste de encontrar a sua outra metade. E quando um Hiyoku a encontra, conta a lenda que os seus corpos se unem, como feixes de trigo, formando um único ser. E nesta fusão, tornam-se únicos e voam, em pura liberdade.

Ouço o Viajante Ilustrador a chamar-me. Amanhã esperam-nos novos destinos, mais histórias, múltiplas imagens e sentires. Nisto despeço-me do homem pássaro e agradeço-lhe por me relembrar que a vida é breve, e que só nos resta tempo para amar, sendo que, mesmo para isso, passa num instante.

Pouco descansamos naquela noite ou não tivéssemos de cedo voltar ao aeroporto. Entre modernos pássaros gigantes de metal acabamos por ver o nascer do dia, recordando que os japoneses, aquando do Ano Novo, costumam reunir-se e ir até ao litoral ou até alguma montanha para assistir ao primeiro amanhecer. Senti-me como que a iniciar um novo ciclo de vida, ora ansiosa, ora esperançosa.

Folheei uma última vez o meu caderno e li baixinho um poema haiku de Matsuo Basho, antes de seguir viagem:

“o coração viajante não se enraíza/  antes quer ser/  braseira ambulante”,

… e a alma sossegou.

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